terça-feira, 26 de maio de 2009

***!!! BREAKING NEWS !!!***

***!!! BREAKING NEWS !!!***

***!!! NOTÍCIAS ESCAQUEIRANDO !!!***



INFORMAM-SE AS/OS INTERESSADOS PELO ESTADO DE SAÚDE DO MEU EX-CANINO, QUE O MESTRE DE SEM-CERIMÓNIAS FOI DE OPINIÃO QUE UM CANINO QUE ME FOI FIEL DURANTE QUASE 45 ANOS, É INDIGNO DE UM SIMPLES CONCERTO.

PROPÔS, ANTES, UMA COROAÇÃO NO ESPAÇO DEIXADO VAGO PELO INFELIZ EXTINTO, DE MODO A SEREM PARA SEMPRE RELEMBRADOS E CONTINUADOS OS ESFORÇADOS SERVIÇOS QUE ME PRESTOU DESDE A MINHA JÁ REMOTA 1ª INFÂNCIA!


APROVEM-SE, DEFIRAM-SE E CONSTAR SE FAÇAM ESTAS ESCAQUEIRANDAS NOVAS! (BREAKING NEWS)


A BEM DA REI-NAÇÃO!

ASPÁSIA PRU-DENTE DA CIRCUNSPECÇÃO CAUTELA

SUA FUTURA MAJESTADE D. π-CANINO II

(D. PICANINO II para quem não (se) viu Grego no Liceu:)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Concerto de Dentadura

CARÍSSIMOS AMIGAS E AMIGOS DESTA ALDEIA BLOGAL E ARREDORES


VENHO POR ESTE MEIO PARTICIPAR, QUE, TENDO SIDO VÍTIMA RECENTEMENTE DE UMA QUEDA....... DE UM DENTE CANINO SUPERIOR DIREITO, SEREI AMANHÃ SUJEITA A UM DOLOROSO CONCERTO DE DENTADURA, MOMENTOSO EVENTO AO QUAL ESPERO SOBREVIVER MANTENDO INTACTA A MINHA I.....DENTIDADE!!!

ABAIXO PODEIS VER A SALA ONDE SE EFECTUARÁ O CONCERTO, E ONDE AMANHÃ ACTUAREI POR VOLTA DAS 16:00H, FICANDO A MESMA SITUADA NOS "ALENTOURS" DA QUINTA D´ALEMBERT.
ESTÃO TODOS CONVIDADOS PARA ESTE HETERODÔNTICO EVENTO PROTÉTICO-MUSICAL. QUEM JÁ FÔR "HABITUÉ" DESTAS LIDES, PODE LEVAR SOPAS DE LEITE PARA O LANCHE. TAMBÉM PODEM LEVAR OS VOSSOS CANINOS E FELINOS, POIS NÃO PAGAM BILHETE. POR OUTRO LADO, NÃO PODERÃO ENTRAR ESPECTADORES QUE TENHAM COMIDO DENTES DE ALHO AO ALMOÇO.

MAIS INFORMO QUE NA 2ª PARTE DESTE CONCERTO, O CONHECIDO "CROONER" CARLOS GARDOL INTERPRETARÁ "EL TANGO DEL DIENTE ARREGAÑADO", SOB O PATROCÍNIO DA PASTA WATERGATE.

LÁ OS ESPERO E ASSISTAM ENTÃO A UMA PEQUENA AMOSTRA DESTE CONCERTO, PARA LHES IR ABRINDO... A BOCA - DE RISO!




domingo, 3 de maio de 2009

Dia da Mãe 1960



O primeiro trabalho para o dia da Mãe, aos 3 anos, feito na Infantil do Colégio Valsassina, onde minha Mãe foi Professora da antiga 4ª classe, durante cerca de 40 anos.


sábado, 25 de abril de 2009

Defendamos
o Cravo de Abril !


Ó belo cravo de Abril,
querem fazer-te murchar.
Há para aí farsantes mil,
que só querem metal vil,
e a ti pretendem pisar.

Estes mandantes de agora,
sonegam a liberdade,
e andam pelo País fora
discursando a toda a hora,
mas não dizendo a verdade.

Foi há trinta e cinco anos
que nasceste entre canções.
Caíram por terra os planos
dos sequazes e tiranos
e abriram-se as prisões!

Eram tempos de alegria,
de dar as mãos e cantar
de pensar que a aleivosia,
a ganância e a cobardia
iam por fim terminar.

Mas que vemos hoje em dia?
Teus ideais espezinhados,
tristeza, melancolia,
desânimo e apatia,
nos pobres e desempregados.

Mas, cravo, não te amedrontes!
Ainda há, quem, sem temer,
por cidades, vilas, montes,
não esquece os horizontes
que tu abriste ao nascer!

Leonor 2009

sábado, 11 de abril de 2009

Boa Páscoa!

Desejando Boa Páscoa a todos, aqui deixo duas obras de dois ateus: eu e meu Pai, dedicadas à Paixão de Jesus, que ambos admiramos como Homem. Um desenho dos meus 13 anos, feito no Liceu, e um soneto de meu Pai, hoje com 94 anos, e que com ele concorreu aos Jogos Florais da Primavera realizados em Setúbal, em 18 de Abril de 1941, organizados pela Associação dos Antigos alunos da Escola Industrial e Comercial “João Vaz”, tendo obtido um 1º Prémio. Apesar de ser ateu, ele lá versejou de modo a fazer inveja a muito crente!!! O que deu azo a que um Padre surpreso, à altura, lhe perguntasse como era possível um ateu fazer tal soneto, a que meu Pai respondeu que o Poeta é um fingidor...

Vitral
Leonor Nascimento, 1970

(clique para aumentar)

Redenção

A Treva cai na Terra e vem impôr
pesado luto à turba que emudece.
No Gólgota, escalvado, a Cruz parece
a trágica visão da própria dor.

Crucificado, exangue, o Redentor,
de espinhos coroado, a Vida oferece,
em Santo Sacrifício, que trouxesse
a salvação ao Mundo pecador.

Debalde, ó lei humana, condenaste
Aquele que pregou a Lei dos Céus
e com ferro assassino O trespassaste!

Jesus rasgou da Morte os negros véus
e vencendo a mentira que afirmaste,
deu a Verdade ao Mundo: a Fé em Deus!

Rui Nascimento, 1941


domingo, 22 de março de 2009

Parabéns, Tia Ju!

À minha querida tia Georgina - a minha tia Ju - que hoje completa 74 Primaveras, desejo que esteja a passar um dia feliz, na medida que a saúde não a tem ajudado ultimamente.
Tia, Madrinha, Amiga, Companheira, Confidente e minha segunda Mãe, minha Tia tem sido a pessoa que mais me tem apoiado e compreendido ao longo de toda a vida.
Sempre presente para mim, nos momentos felizes ou trágicos que tenho vivido.
Sempre carinhosa, disponível, empenhada em ajudar todos os que com ela têm convivido ao longo dos seus 74 anos - seus Pais, seu Marido falecido aos 53 anos de idade, seus filha e filho, suas quatro netas e seu neto, sua irmã, minha Mãe, a quem tanto ajudou nos últimos anos de vida.
Seus alunos da Escola Primária de Santa Susana, aldeia para onde foi viver após o casamento e onde leccionava as quatro classes da antiga primária, simultaneamente. Seus amigos, vizinhos, ou mesmo simples conhecidos que dela se aproximaram doentes ou necessitados, nunca se foram embora sem uma ajuda moral ou material, uma palavra de conforto, de solidariedade, de apoio, quantas vezes deitando para trás das costas as suas próprias dores físicas ou morais.
Com muita pena minha e de meu Pai não a podemos abraçar hoje pois não se encontra connosco. Fica, também aqui no Jardim um grande beijo de Parabéns e votos de que a saúde lhe permita vir em breve e voltarmos a festejar o seu aniversário em nossa casa.
Recordações dos anos mais felizes da Tia Ju e da sobrinha Nonô

A primeira foto juntas, Évora, 1958

Jardim do Templo de Diana, Évora, 1959


Armação de Pera, 1960

No meu baptismo, Lisboa, 1961,

vendo-se meus falecidos Avô e Irmã.

No casamento de minha Tia, vendo-se meus Pais,
que também foram Padrinhos e meu Tio, o noivo.

Com meus tios, na sua casa da aldeia, 1964.
Minha Tia estava grávida e eu parecia estar também!


Uns momentos de descanso na casa da aldeia, 1964.

Praia da Rocha, 1972

Aldeia de S. Susana, 1976, com minha Mãe e prima.

Pedras da Rainha, 1983, com meus tios, primos e Mãe.


quinta-feira, 19 de março de 2009

Dia do Pai 1965

Os meus trabalhinhos para o Dia do Pai... o ano passado publiquei o de 1966, este ano encontrei há dias o de 1965, mesmo a tempo de sair aqui no Jardim na data certa.

Que todos, Pais e Filhos, tenham um bom dia, se possível em mútua e feliz companhia!








domingo, 15 de março de 2009

Muitos Parabéns, Maria!



Seja dia de alegria,
ternura e doce calor!
Pois faz um ano a Maria,
pequena flor algarvia,
nascida em campo de amor!

Vivas sempre a fantasia
de muitos sonhos em flor!
Desta Lisboa, Maria,
recebe, neste teu dia,
um beijinho da Leonor!


Grande beijo para a Vovó Isabelita Sophiamar e abraços para toda a família!

domingo, 8 de março de 2009

Obrigada, Amigo Jorge!



Pela lembrança, pela sensibilidade, pela amizade expressas
por estas lindíssimas flores no dia da Mulher!
Um abraço de amizade!



terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Testamento da Velha

Amigas e Amigos, hoje, dia de Carnaval, aproveito para republicar esta obra de meu Pai, que já tinha publicado no "Quintal" em 2007. Peço desculpa de não vos visitar há uns tempos, mas não ando muito bem de saúde e quase todo o tempo disponível tem sido para tratar obras do Pai.


Este é o meu testamento
que eu fiz neste momento
em que digo adeus à vida.
Sentia a garra da Morte
a apertar-me o gasganete,
terrível, qual diabrete.

Mandei chamar o vigário,
o médico, o boticário,
uma benzedeira d´olhados;
no momento derradeiro
apareceu o cangalheiro
e quatro gatos-pingados.

Já traziam o caixão,
fiquei cheinha de horror
e soltei tremendo berro.
Nisto, oiço o Sacristão:
“Pregunta o Senhor Prior
a que horas é o enterro”.

Toda a gente em alta grita
quer ser primeiro atendida;
vem de lá o cangalheiro
com um metro de carpinteiro,
quer tirar-me a medida.
“Espere lá – diz o Doutor –
não queira ser metediço;
deixe a velhota auscultar
e depois de eu receitar
faça então o seu serviço.”

O boticário, exaltado,
´té arrepela os cabelos.
E a benzedeira d´olhados,
p´ra afugentar os maus fados,
vai espetando novelos...

Já farta de confusões,
pus essa gentinha a andar
e pensei com os meus botões:
p´ràs minhas disposições,
vou o notário chamar.

E fiz este testamento
de bens móveis e imóveis
e até de semoventes.
Se não agradar a todos,
Sempre é certo que p´los modos,
Vocês são muito exigentes.


Deixo à antiga Direcção
coisas de grande estadão:
ao Amílcar, um capacho,
para a falta de penacho.
E agora sem piada,
esta deixa que é sentida:
que torne a amar a Vida
e recobre a cor rosada.
E não se vá de longada,
é também desejo meu,
para sítio ignorado;
antes volte ao Ateneu,
onde tanto é estimado.

Ao Pacheco relojoeiro,
deixo um disco bem gravado
com um discurso inflamado
p´ra convencer o parceiro.
Poupará muito dinheiro
aproveitando o seu tempo,
porque os dias estão maus.
E no fim de toda a prosa
diz o disco em voz chorosa:
“o concerto é 20 paus.”

Também ao nosso Guilherme
da Circuncisão chamado,
eu vou fazer um legado
que é mesmo de pasmar:
aqui lhe deixo ficar
um triste encargo, afinal,
é ir ao meu funeral
com cara de sentimento.
Como não sou egoísta,
E como ele é um artista,
se for só, nada lamento,
´té dispenso a multidão,
basta-me o seu rabecão
para o acompanhamento.

Ó Marques, tu marcas sempre,
tu marcas em toda a parte,
destacas de toda a gente,
tens elegância e tens arte.
O que é que eu hei-de deixar-te
que te alegre o rir já franco?
Como tens bom coração,
olha, aí fica um tostão
para as falhas lá do Banco.

Machadinho, querido filho,
já não chego a ser avó,
já não canto o sol-e-dó,
já não trauteio o estribilho.
E na hora de morrer,
certo voto vou fazer,
que vai espantar os mirones:
como tens linhaça e lata,
deixarás os Telefones,
passarás a diplomata.

E deixo ao Henrique Dias,
uma pedra de amolar,
onde ele sem arrelias,
possa a tesoura afiar.
E também lhe quero legar
um tinteiro e três canetas
que ele poderá usar
no jornal que vai fundar,
“O Almocreve das Petas”.

Não esqueço a Orquestra Pontes,
tão cheia de cor e vida.
Eu, uma velha carcomida,
quando a ouvia tocar,
ainda sentia ganas
de ir pular e dançar.
E pelos votos que faço,
verás tu, amigo Pontes,
que eu não tenho mau génio;
que toques por vales e montes,
contratado pelo Eugénio.
E já alta madrugada,
depois de muito tocares,
paguem à rapaziada,
além da massa fixada,
umas horas suplementares.

E deixo ao José Faria,
Uma garganta de prata,
pois, como tem muita lata,
´inda ópera cantar podia.
E indo abrir loja nova,
para endireitar a vida
vou-lhe dar uma receita:
nada venda por medida,
mas sim tudo obra já feita.
E aos sócios em geral,
eu quero dar um conselho:
passem ali p´lo bufete
que há lá um vinho velho
que é de tirar o barrete.

Ao Nogueira vou dizer
aqui, sem que ninguém ouça:
casa depressa com a moça,
não esperes envelhecer.
Se ela. já farta de esperar,
te vem a dar com a janela,
não tornas a encontrar
uma pequena como ela.

E falando das senhoras,
só elogios posso ter
à sua elegância e graça...
o perfume que perpassa...
enfim, todos estão a ver.
Deixo-lhes um grande valor
que poderão pôr à prova:
isto é, um filtro d´amor
do mágico Barzabum.
Mostrem do que são capazes,
façam ralar os rapazes;
quando eu era também nova,
não me escapava nenhum.

E tu, ó Pereira da Silva,
cada vez estás mais menino,
e como nasceste em Março,
´inda hás-de ser Marcelino.
Visto a vida estar bicuda
vais apanhar a taluda;
deixo-te uma benzedura
para curares a mordedura
que te deram certos cujos,
e assim poderes arejar,
espanejar e lavar,
processos velhos e sujos.
À Orquestra dos Fininhos,
alguns sambas deixaria
se soubesse que ainda dançam
o Macedo e o Faria.
Mas como um agora é tropa
e o outro anda arredio,
levo os sambas para a cova
e não solto mais um pio.

E ao Agostinho Albino,
eu cá não deixo nem bóia,
pois já tem muito de seu,
que desde a guerra de Tróia,
ainda não apareceu
neste mundo uma outra Helena
que chegue à sua pequena.

Ao Arnaldo então eu deixo
um bom vaporizador
e uns maus cheiros muito finos
que é para ele seringar
determinados meninos
que se juntam lá na loja
a fazer sala de estar.

Fialho, vou-te deixar
em honra ao teu bigodinho,
uma incumbência taluda:
escreve para o “Pensa e Estuda”,
que aquilo está muito fraquinho.

Ao animador Candeias
vou contemplar de tal modo
que até se vai derreter...
deixo este espólio todo:
uns sapatos e umas meias
que eram do Fred Astaire.

Ao Soares, sempre animado,
bom amigo que se tem,
deixo trinta corridinhos
para ele dançar aos pulinhos,
ele é que sabe com quem.

Ao Arôcha quero deixar
uma coisa que lhe preste
nunca será codilhado
sempre que tenha arranjado
quatro trunfos de Ás e Best.

Esgotados os meus haveres,
ao findar o meu sofrer,
no momento derradeiro,
´inda tenho um gesto terno:
entrego a alma ao Inferno,
deixo a carcaça ao coveiro.

VELHA GAITEIRA

(R.C.NASCIMENTO)

(Lido pelo Autor no ATENEU SETUBALENSE, Baile de Mi-Carême, em 22 de Março 1941)


(Aqui em baixo, o original, dactilografado em 1941.)



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Amor há 70 Anos
(Carta de Amor por Procuração)

O Ungüento de Basalicão


Trago-vos hoje uma curiosidade alusiva à época CarnaValentina (eheheh...) que atravessamos!
Uma Carta de Amor, ou melhor, o seu rascunho, que descobri há pouco tempo, escrita por meu Pai há 70 anos, em Setúbal, a pedido de um amigo boticário, a quem faltava o engenho e arte para se declarar a uma bela menina, Maria Cecília de seu nome, que era soprano no Orfeão Cetóbriga, onde meu Pai também cantava.


Aqui podem ver as cinco folhas do "rascunho" original que ficou em poder do meu Pai até hoje. Naturalmente, terá sido "passado a limpo", antes de ser entregue à diva idolatrada pelo humilde boticário... Desde já aviso que a carta se encontra transcrita mais adiante, pois já a nossa amiga Elvira, que o não sabia, se deu à trabalheira arqueológica de ler as páginas do rascunho... um azar de 6ª feira, 13, como ela já comentou.







Parece que apesar das inspiradas linhas do procurador, a carta não surtiu o efeito desejado... e ao infeliz boticário não restou mais que aplicar "ungüento de basalicão" nas feridas de amor!...

E uns meses mais tarde, meu Pai revelou à amiga e colega do Orfeão quem tinha sido o verdadeiro autor da inflamada missiva. Parece que todos se divertiram muito com o caso, incluindo o preterido boticário Júlio!

(Segue-se a transcrição, respeitando a ortografia da época.)

******

Setúbal, 16 de Fevereiro de 1939

Excelentíssima Senhora

Eu quizera fazer calar no peito meu sofredor o sentimento insensato, porventura, que nêle nasceu e se enraizou de tal arte que me obriga a dar êste passo, a vir junto de vós, como o peregrino vai junto da capela longínqua, lançar-se aos pés da imagem da sua devoção, a implorar, a confessar.

A dizer-lhe da chama extranha e devoradora que reacendeu no meu ser e que é para mim, simultaniamente, a luz que me prende à vida e o fôgo que me há-de devorar até à morte.

Não supunha, minha senhora, que no contacto diário dos ungüentos e águas bóricas se não possam inflamar as paixões mais avassaladoras e imperiosas.

Um boticário humilde pode levantar seus olhos, quando nêles brilhe o fôgo sincero do amor, para a dama que lhe avassala o pensamento, como o crente mesquinho pode e deve! elevar para Deus seus olhos a transbordar da chama da Fé; como o rústico pastor olhou o Menino, filho de Maria Santíssima e nascido no palheiro redentor lá nas terras benditas da Judeia.

Quando dancei consigo, quando a ouvi, fiquei prêso e a desejar prender-me mais ainda.

O seu encanto perturbante, fascinador, qualquer coisa de inexplicável e dominadora, rendeu-me.

Olhar que tentaria o próprio José do Egipto, se êle tivera a ventura de a conhecer, como lhe resistiria eu, alma isolada do mundo, alma danada a refrear o anceio ardente do seu sonho entre hóstias de vários tamanhos e frascos de diversas embocaduras e misteriosos rótulos?!

Minha senhora, o sentimento que em mim despertou não podia, não devia ficar sepultado em meu peito, amortalhado no negro dominó que me disfarçava.

Nessa mesma noite ficou sabendo quem sou; hoje atrevo-me a confessar-lhe a minha esperança.

Se alguma estima pode ter por quem a adora e só a si vê, se a minha sincera confissão algum eco puder ter na sua alma, leve uma flor ao peito ao baile do Grémio.

Dessa Mão depende agora a felicidade que sonhei.

Esta carta escrita na quadra de folguêdos que atravessamos, poderia parecer brincadeira se a expontânia sinceridade das minhas palavras não fosse o penhor mais fiel da verdade de quanto lhe digo.

E termino, que já me estou alongando e o tempo urge. Agora mesmo entrou uma freguesa a comprar 5 tostões de basalicão. Pudera êsse unto balsâmico diminuir a amargura que trago no coração como há-de curar o furúnculo que ela tem na ponta do nariz!

Mas é impossível! Para o mal da minha alma o único basalicão é o seu amor!

Seu admirador sincero e apaixonado,

Júlio P.


NOTA: O unguento de basalicão (nome popular da planta basílico), usava-se no tratamento de furúnculos.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Memórias de Margarida, minha Irmã

Minha irmã Margarida aos 16 anos


Quadro (espelho) com o seu signo, Aquário


Amigas e Amigos

Passa hoje mais um aniversário natalício de minha irmã Margarida, falecida em 1972, que, se ainda estivesse entre nós, completaria 62 anos. Muito provavelmente teria o seu próprio blog e aqui andaria a fazer-nos companhia, partilhando alguns dos seus poemas, desenhos e ideias, como já fazia enquanto viveu, com os seus amigos de juventude. Só resto eu para transmitir algo das suas memórias, mas como ando prioritariamente a tratar de obras do meu Pai, como se compreende, dado a sua avançada idade, tem ficado para trás a obra da Margarida.

Minha irmã tinha muitos "hobbies", nomeadamente a leitura, e de entre esta preferia os autores de língua francesa e romance policial. Tendo enveredado pelo Direito e tencionando exercer a advocacia, ela gostava de seguir, nos meandros dos livros policiais, a perseguição, a descoberta e a punição dos malfeitores e criminosos.

Outras paixões eram escrever poesia, desenhar, pintar e a construção de réplicas de navios, que adquiria em caixas com centenas de peças em plástico que pacientemente pintava com enamel, colava e montava até o pequeno navio estar concluído até ao mais ínfimo promenor, reproduzindo o original. Dos três que havia construído à data do seu falecimento, ainda tenho um, algo danificado, e que um dia que tenha mais tempo tenciono reparar.

Pelos anos do Liceu Filipa de Lencastre, que frequentou sempre com bom aproveitamento e onde mais tarde eu também seria aluna, entre outras brincadeiras, escreveu alguns poemas humorísticos alusivos à vida liceal entre professoras e colegas, entre os quais escolhi este para vos mostrar. Claro que foi inspirado no famoso "Colchão dentro do Toucado" de Nicolau Tolentino.




Soneto

Lápis na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé no estrado, a senhora ordena
Que o furtado ponteiro, (a sua avena),
A aluna o ponha ali ou a empregada.

A aluna, moça esbelta e aperaltada,
lhe diz coa doce voz que o ar serena:
Sumiu-se-lhe o ponteiro? É forte pena;
Ai, e a senhora tão apoquentada...”

— "Vous repondez assim? Vous zombez disto?
Tu pensas que por seres boa aluna
Não te ponho na rua?" E, dizendo isto,

Levanta-se, avançando qual foguete.
Eis senão quando (caso nunca visto)
Cai-lhe o ponteiro do bolso do colete!



Margarida Nascimento

(anos 60)


Como se vê, também não lhe faltava humor, apesar de a maioria dos poemas que deixou ser em género mais sério.

Também deixo aqui três dos seus desenhos, feitos talvez ainda durante os anos do liceu. São os poucos que já digitalizei, mas ainda falta muito, nomeadamente algumas aguarelas em género japonês, que ela muito apreciava.



Armas de Camelot

A Equipa

O Mordomo


terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Ode de Gratidão ao Artista

Flor Fractal
Artistas eu conheci
que escreveram ou pintaram;
e, dos músicos que ouvi,
houve alguns que me “tocaram”,
a alma me dedilharam
e grande emoção senti.

Sim, que a alma é instrumento
e o mais belo de tocar...
E o Artista tem valimento,
se nos vai ao sentimento,
se com graça e com talento
nos faz rir... ou faz chorar...

Artista, que me fizeste
emudecer e vibrar:
pelo muito que me deste,
por este nó na garganta,
por essa Beleza tanta
que conseguiste expressar,

Artista, eu te agradeço
a frase, a nota ou o verso,
a pintura ou a canção;
o riso é vinho e é pão...
e as lágrimas não têm preço,
se na Beleza têm berço...
e dão vida à Ilusão.



Aspásia 05





P.S. - Já depois de publicada esta postagem, acabo de saber do falecimento de um grande Violinista, amigo de meu Pai, com quem muitas vezes tocou em dueto, ambos como frequentadores da Academia dos Amadores de Música.

Ramiro Simões era o seu nome, e durante anos foi visita aqui de casa aos Domingos, para ensaiar com meu Pai, a quem muito ensinou, pois este Amigo, bancário de profissão, possuía o Curso Superior de Violino. Por vezes tocava no Teatro Nacional em dueto com um pianista, aquando dos intervalos dos espectáculos, como em tempos era uso nos grandes teatros.

Conta ainda meu Pai, que aquando do incêndio do Teatro Nacional, onde o Sr. Ramiro tinha deixado um violino Stradivarius que na altura possuía, voltou atrás e arriscou a vida, conseguindo salvar o seu precioso instrumento.

Escrito em 2005 e dedicado a todos os Artistas em geral, este poema é hoje dedicado em particular à memória deste Amigo e Artista.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

2009 SEM FOME?

JÁ PENSASTE NOS TEUS DESEJOS PARA O NOVO ANO?

ELES TAMBÉM!!!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Um Feliz 2009 !




Receita de Ano Novo


Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Feliz Natal


quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

NATAL
Na Tal Luz


Esse Natal de há dois mil anos etc. e tal,
só esse afinal foi o verdadeiro.
Não tanto talvez por ter sido o primeiro,
mas porque nessa noite é que num vulgar palheiro,
nascia um menino muito especial.

Só nesse Natal a noite foi tão fria.
Só nesse caía, densa, tanta neve.
Só nesse se ouvia um choro, ao de leve,
do menino com frio, num vagido breve,
enquanto sua jovem mãe em faixas o envolvia.

Só nesse Natal brilhou a grande estrela.
Quase se diria que era claro dia.
No Céu, brilhante, o astro que fulgia.
Na Terra, o branco manto que, suave, o reflectia.
Só nesse Natal a noite foi tão bela.

Só esse Natal foi mesmo de Jesus.
Depois, inventaram-se umas complicações,
muitas fitas, luzes, pinheiros e faisões,
enquanto mais meninos pobres nascem e, aos baldões,
todos os dias carregam uma cruz.

Afinal,
só acredito nesse Natal
de há dois mil anos etc. e tal.
Nestes "Natais" de agora, vendidos por catálogo,
e a pagar em suaves prestações,
nestes "Natais" de agora, não brancos, mas vermelhos
do sangue no asfalto aos borbotões...
Como é que pode estar Jesus nos corações?
Como é que pode ficar mais leve a nossa cruz?

Será que ainda voltará a haver Natais como aquele primeiro
Natal, sentido, vivido, brilhando Na Tal Luz?

Aspásia 04


domingo, 14 de dezembro de 2008

Margarida, minha Irmã
(Republicação)



Maria Margarida Fernandes de Carvalho Nascimento

(7 de Fevereiro 1947 - 14 de Dezembro 1972)

- Retrato a Óleo (póstumo)




Jogando à bola com o Pai - 1956


Irmã,faz hoje 36 anos que partiste.

Infelizmente partiste muito cedo, tão cedo que ainda quase não nos conhecíamos… eu entrava em pleno na adolescência e tu eras 10 anos mais velha, e embora vivesses aqui no prédio com a tua Avó, pouco convivíamos a não ser ao fim de semana ao almoço, ou quando eu passava lá por baixo pelo quarto independente da D.ª Emília, mas poucas vezes estavas. A Faculdade de Direito tomava-te quase todo o tempo e a nossa diferença de idades era bastante significativa no nosso escalão etário.

Além disso, tinhas as tuas amigas, a Juss, já desde o Liceu, a cuja quinta ias andar a cavalo e que se formou em Direito no mesmo ano que tu – 1969 - e a brasileira Lúcia, que tinha vindo para Portugal e tinha dois anos menos que tu, conheceram-se no voleibol… a Lúcia, tão acarinhada por ti e pela Avó Maria, quando veio estudar Medicina para Portugal. A Lúcia, que nem sempre tinha muito dinheiro e almoçava muitas vezes contigo e a Avó. A Lúcia, que te convidou para ires ao Brasil, à casa dela no Rio Grande do Sul, no Natal de 1972. A Lúcia… que colocou o que restou de ti depois do acidente no jazigo da família dela, na cidade de Bento Gonçalves. A Lúcia… seria preferível não teres conhecido a Lúcia de Souza???

Foi longa aquela noite de 14 de Dezembro de 1972.

O telefone tocou pelas 10 da noite. Tu tinhas partido com a Jusse e a Lúcia para o Brasil no dia 7 ou 8… já tínhamos recebido dois ou três postais teus… e depois dessa noite ainda recebemos mais um ou dois… o Correio era lento do Brasil para cá… nunca aqui em casa se tinham recebido postais de uma morta, até então. Claro que os tenho todos guardados, e recentemente encontrei outros mais.
O nosso Pai atendeu. Pela cara e de onde vinha o telefonema… eu percebi logo que algo grave, muito grave se tinha passado.
“Um acidente. Um camião em sentido contrário... A sua filha ia a conduzir. Com as amigas Jusse e Lúcia e o pai iam todos no carro deste último… O camião perdeu a mão, ou pareceu vir contra o carro… A sua filha tentou desviar-se. O carro despistou-se: A sua filha foi projectada pelo vidro da frente. Foram todos levados ao hospital. A sua filha faleceu. As amigas e o pai da Lúcia, feridos, mas vivos… Quer trasladar a sua filha para Portugal?”
Eu e a minha Mãe estávamos já em prantos. O nosso Pai, lívido, mas nem uma lágrima. “Para que quero eu aqui uma filha morta? Fica aí convosco que fica bem… Antes quero dar esses 400 contos à minha filha viva – eu – do que a uma filha morta que já de mais nada precisa.”

Desligou o telefone. Eu estava num choro que só dois dias depois é que foi passando.



Maria dos Santos, a Avó Maria, perdeu o marido, a filha mais velha Felismina de 20 anos, a filha Albertina de 25 e o filho Jaime (pai de Jaime Fernandes, locutor de rádio), todos levados pela tuberculose. E finalmente sua neta Margarida de 25 anos, minha meia-irmã, num acidente de viação no Brasil.



E agora? Como dizer a uma Avó-Mãe, que já perdera o marido, o filho e as duas filhas, todos levados pela tuberculose… e que só via a neta desde que ficou órfã com um ano de idade… que a neta de 25 anos acaba de morrer no Brasil?



No Casamento dos meus Pais (de laçarote) - Agosto 1956



Lá fomos em féretro a casa da Dona Emília. Os rapazes estavam também, o Adrião, o e o Paulo. (Ah, a propósito, irmã. O Zé já se foi, fez um ano em Dezembro, com 50 anos… Foram muitos anos de droga… o irmão dele, o Adrião, andou ali a tirar os velhos móveis e candeeiros do 1º andar. Eu e o Pai vínhamos a entrar e lá lhe demos os sentimentos. O Adrião, mais novo que tu uns 6 anos, tem quatro filhos e já é avô, calcula… O Paulo teve uma doença grave, mas está controlado. A minha Mãe também já se foi em Abril de 2002. A Mãe deles, D.ª Emília, que também foi tua segunda mãe, foi logo a seguir, em Maio desse ano. Felizmente não viveu para assistir à morte do filho Zé.)

Nem me lembro já com que palavras, o meu Pai lá contou à tua Avó o sucedido. Pois ficou como calculas… ou viste daí… Uma vida inteira a criar-te. Era tua Mãe, além de Avó. Maria dos Santos, viúva do marido, “órfã” de 3 filhos, entre os quais a tua Mãe, Albertina, 1ª mulher do nosso Pai. Maria dos Santos, de Vila Nova do Ceira, Monteira, Góis. Maria dos Santos, analfabeta, ex-empregada no Instituto Pasteur, onde lavava frascos de vidro e onde foste criada dentro dos grandes caixotes de cartão que te serviam de parque, irmã. Maria dos Santos, a tua Avó, perdeu por fim a única neta nesse Natal de 1972. Ainda te sobreviveu seis anos e faleceu em 1978. Uma Avó Coragem… eu ia ali muito à casa da frente para onde vocês tinham mudado poucos meses antes de tu faleceres, tratar dos canários e fazer alguma companhia, claro. Fui a neta adoptiva, a única que restou.

Olha… ainda acabei o barco em miniatura que tu deixaste incompleto. Acho que era o “H.M.S. Beagle”, onde Darwin foi na expedição às Galápagos. Os teus livros de Russo agarrei neles e também estudei um bocado. Pelo menos sei o alfabeto e sei ler mas hoje em dia só me lembro aí de umas 20 palavras… nesse tempo sabia muitas mais. A ti é que o Russo te ia fazer falta para quando entrasses no Gabinete da Área de Sines… para mim o Russo foi apenas um desafio e o gosto pelas línguas. Mais um hobby nas férias passadas no Alentejo…

Também tenho comigo muitos versos e desenhos teus, já tinha alguns, mas, finalmente com a entrega do teu pequeno apartamento que se fará ainda este mês, encontrei todos os teus papéis que ali ficaram durante 36 anos, em que a pequena casa foi servindo de biblioteca e armazém, depois do falecimento da Avó.

Dos montes dos teus livros, li os do “Santo” e os do Zane Grey todos. Claro que os da tua infância, os Cinco, a Semana de Aventuras, a Condessa de Ségur e o Emílio, esses já os tinha lido todos, ainda eles estavam na gaveta de baixo da cómoda, no quarto independente, onde eu regularmente me ia abastecer.
De coisas mais antigas que o Pai vai contando às vezes, lá sei que, logo depois de a tua Mãe Albertina ter falecido de tuberculose com cerca de 25 anos, o Pai e a Avó contigo ao colo vinham todos os dias de Mem Martins para Lisboa no combóio de Sintra. Depois, no eléctrico, mesmo depois de fazeres 6 anos continuaste a não pagar bilhete durante mais uns anos, pois todos os revisores conheciam a pequenita Calila, órfã de Mãe, que vinha sempre ao colo da Avó há tantos anos no mesmo eléctrico.


Também encontrei versos de tua Mãe Albertina e tua Tia Felismina, que amorosamente guardavas sem ter conhecido nem uma nem outra. Ambas com grande veia poética, tua Mãe e Tia foram colaboradoras na "Revista Trastagana" de Évora, até falecerem. Eu só soube disso agora que encontrei meia-dúzia dessas revistas, de 1936. A veia poética passou para ti, de tua Mãe e de nosso Pai. Agora, apesar de tão idoso, recuperou a saúde que parecia estar a abandoná-lo o ano passado, felizmente.
Um destes dias começarei a publicar algumas obras tuas, entre desenhos, poemas, prosas por aqui. Não se sonhava, no ano em que faleceste, que a Tecnologia de hoje em dia permitisse uma coisa dessas.

Irmã, terei de escrever mais sobre ti, para que alguns Amigos meus fiquem a conhecer algo da pessoa que já eras e cuja vida e talento, cortados cerce na nefasta senda de tua Mãe e Tios, ainda tanto tinham para dar.

Recebe um beijo de nosso Pai e desta tua irmã

Leonor




Minha Mãe, minha Irmã e eu - 1958


UM SONETO DE MARGARIDA (dedicado a seus padrinhos)

Para a Madrinha e o Padrinho, o Fernando Manuel, a Dadi, o “tio” Hermínio.


Se sinto tanto afecto, só de olhá-los,
É pena desigual deixar de vê-los;
Se presumo, com obras, merecê-los,
Má paga deste engano é chateá-los.

Se me vêm saudades, ao lembrá-los,
É por ter aprendido a conhecê-los;
Se mais me quero a mim, por bem querê-los,
Mais me aflige a ideia de deixá-los.

Expressões menores são, que o pensamento,
Estas tão pobres rimas, com que tento
Com fraco engenho, dizer forte sentir.

Ainda os não deixei, e, que ironia!
Falta-me já a vossa companhia;
Sobeja-me a tristeza de partir.


Margarida
7/10/71

(Infelizmente, este Soneto de minha Irmã, aos 24 anos, veio a revelar-se premonitório.)