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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Amor há 70 Anos
(Carta de Amor por Procuração)

O Ungüento de Basalicão


Trago-vos hoje uma curiosidade alusiva à época CarnaValentina (eheheh...) que atravessamos!
Uma Carta de Amor, ou melhor, o seu rascunho, que descobri há pouco tempo, escrita por meu Pai há 70 anos, em Setúbal, a pedido de um amigo boticário, a quem faltava o engenho e arte para se declarar a uma bela menina, Maria Cecília de seu nome, que era soprano no Orfeão Cetóbriga, onde meu Pai também cantava.


Aqui podem ver as cinco folhas do "rascunho" original que ficou em poder do meu Pai até hoje. Naturalmente, terá sido "passado a limpo", antes de ser entregue à diva idolatrada pelo humilde boticário... Desde já aviso que a carta se encontra transcrita mais adiante, pois já a nossa amiga Elvira, que o não sabia, se deu à trabalheira arqueológica de ler as páginas do rascunho... um azar de 6ª feira, 13, como ela já comentou.







Parece que apesar das inspiradas linhas do procurador, a carta não surtiu o efeito desejado... e ao infeliz boticário não restou mais que aplicar "ungüento de basalicão" nas feridas de amor!...

E uns meses mais tarde, meu Pai revelou à amiga e colega do Orfeão quem tinha sido o verdadeiro autor da inflamada missiva. Parece que todos se divertiram muito com o caso, incluindo o preterido boticário Júlio!

(Segue-se a transcrição, respeitando a ortografia da época.)

******

Setúbal, 16 de Fevereiro de 1939

Excelentíssima Senhora

Eu quizera fazer calar no peito meu sofredor o sentimento insensato, porventura, que nêle nasceu e se enraizou de tal arte que me obriga a dar êste passo, a vir junto de vós, como o peregrino vai junto da capela longínqua, lançar-se aos pés da imagem da sua devoção, a implorar, a confessar.

A dizer-lhe da chama extranha e devoradora que reacendeu no meu ser e que é para mim, simultaniamente, a luz que me prende à vida e o fôgo que me há-de devorar até à morte.

Não supunha, minha senhora, que no contacto diário dos ungüentos e águas bóricas se não possam inflamar as paixões mais avassaladoras e imperiosas.

Um boticário humilde pode levantar seus olhos, quando nêles brilhe o fôgo sincero do amor, para a dama que lhe avassala o pensamento, como o crente mesquinho pode e deve! elevar para Deus seus olhos a transbordar da chama da Fé; como o rústico pastor olhou o Menino, filho de Maria Santíssima e nascido no palheiro redentor lá nas terras benditas da Judeia.

Quando dancei consigo, quando a ouvi, fiquei prêso e a desejar prender-me mais ainda.

O seu encanto perturbante, fascinador, qualquer coisa de inexplicável e dominadora, rendeu-me.

Olhar que tentaria o próprio José do Egipto, se êle tivera a ventura de a conhecer, como lhe resistiria eu, alma isolada do mundo, alma danada a refrear o anceio ardente do seu sonho entre hóstias de vários tamanhos e frascos de diversas embocaduras e misteriosos rótulos?!

Minha senhora, o sentimento que em mim despertou não podia, não devia ficar sepultado em meu peito, amortalhado no negro dominó que me disfarçava.

Nessa mesma noite ficou sabendo quem sou; hoje atrevo-me a confessar-lhe a minha esperança.

Se alguma estima pode ter por quem a adora e só a si vê, se a minha sincera confissão algum eco puder ter na sua alma, leve uma flor ao peito ao baile do Grémio.

Dessa Mão depende agora a felicidade que sonhei.

Esta carta escrita na quadra de folguêdos que atravessamos, poderia parecer brincadeira se a expontânia sinceridade das minhas palavras não fosse o penhor mais fiel da verdade de quanto lhe digo.

E termino, que já me estou alongando e o tempo urge. Agora mesmo entrou uma freguesa a comprar 5 tostões de basalicão. Pudera êsse unto balsâmico diminuir a amargura que trago no coração como há-de curar o furúnculo que ela tem na ponta do nariz!

Mas é impossível! Para o mal da minha alma o único basalicão é o seu amor!

Seu admirador sincero e apaixonado,

Júlio P.


NOTA: O unguento de basalicão (nome popular da planta basílico), usava-se no tratamento de furúnculos.

quinta-feira, 27 de março de 2008

O FILTRO D´AMÔR



Caros Amigos e Amigas

Hoje, Dia Mundial do Teatro, ponho à disposição na Internet, mais como curiosidade do que como obra teatral, a comédia musicada "Filtro d´Amôr", escrita por meu Pai em 1941 e que já foi publicada em fascículos n´ "O Quintal do meu Pai", o ano passado.
Esta peça nunca foi representada, tendo sido apenas lida em voz alta pelo Autor no antigo Teatro Luísa Todi (hoje Forum), perante o empresário do mesmo à época. Este não levou a peça ao palco, por receio que não atraísse muito público e também por ser musicada, o que implicava alguns elementos do elenco terem de cantar e/ou tocar…

Dado o muito mau estado do original, dactilografado e do qual podem ver as cinco primeiras páginas, foi-me necessário reescrevê-lo de raiz no Word. Também utilizei a Ortografia actual, nomeadamente retirando bastantes acentos circunflexos, pois nesse tempo até AMÔR o levava... bons tempos!!! Já não há AMÔR como o de antigamente... e muito menos filtros que o estimulem !... Então, se quiserem dar uma vista de olhos, cliquem em


O FILTRO D´AMÔR

Infelizmente no PDF perderam-se alguns caracteres e formatos de letra usados no DOC.




"Joujou e Balangandans"
Lamartine Babo, 1939
(Canção Brasileira contemporânea da peça)



ENTÃO, BOA NOITE DE TEATRO!



E caso detectem alguma gralha, agradeço que deixem nota nos comentários.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Parabéns, Pai!

A meu Pai, que hoje completa 92 belos anos, dedico estas "rimas". Perdoem o orgulho da filha babada...



Neste dia memorável,
perante nobre assembleia,
ocorreu à filha a ideia
de rimar ao pai amável,



que ao Xadrez tem dedicado,
principalmente, a existência;
mas também, com excelência,
noutras Artes é versado.



O Problema de Xadrez,
p´ra ele não tem segredo.
Compõe, sem dúvida ou medo,
mates em dois e em três.


Problemas figurativos,
tecendo belas imagens,
dedicou a personagens
ilustres, mortos ou vivos.



A concursos variados
apresenta seu trabalho
e, sempre sem enxovalho,
fica bem classificado.

Mas se a Musa do Xadrez
foi a que mais o inspirou,
as outras, que cultivou,
não deixou em pequenez.

De Erato, melodiosa,
aprendeu, sem desatino,
a arrancar do violino,
tango ou valsa primorosa...


A mesma Musa formosa,
o inspirou na Poesia:
num repente e com mestria,
verseja com mote e glosa.


Dos livros é grande amigo,
quer versem Arte ou Ciência,
e na arte da eloquência
não passa despercebido.


Grande leitor de jornais,
das Letras grande amador,
chegou a dizer, de cór,
“A Ceia dos Cardeais”!...


Às mais exactas Ciências,
com afinco se aplicou,
e também não desprezou,
dos astros, as refulgências!


De Arquimedes às Ideias,
ou de Einstein às Teorias,
dedicou noites e dias,
desenredando essas teias...



Do Tempo leva vitória,
os cometas observou...
E, de Vénus, contemplou
a apolínea trajectória! (*)



Os amigos dedicados
nunca da memória tira...
por Damião de Odemira,(**)
os traz, sempre, convocados!



Já longo é o seu trajecto,
mas não se dá por vencido...
amanhã, ao sol nascido,
já ensaia outro projecto!


Da Razão, Justiça e Bem
Paladino se tornou,
Esposo amável se mostrou,
Pai muito amigo também;
histórias conta mil e cem
que a todo o que escuta encantam...
Noventa e dois “já cá cantam”...
Cá estaremos para os Cem!!! (***)

X C I I em M M V I

* * *

(*) - O trânsito de Vénus.
(**) - A Tertúlia "Damião de Odemira", de que foi fundador.
(***) - Pelo menos!




Ao Violino, seu 2º Hobby
- Señor Comisario (tango)
- Samaritana (fado) - Adiós, Pampa Mía (tango)