
É verdade, Mãezinha, já se passou tanto tempo depois daquela noite...
Vou-me sempre lembrando de ti todos os dias... e para mais agora que nas arrumações aqui em casa tenho encontrado muitos papéis, fotos, postais teus e a tia veio cá uns dias e andámos a ver roupas tuas para ela levar algumas. Tem de ir lá a um casamento em Évora e vai levar um saia-casaco teu.
Lembras-te de uma vez aquando de uns dias passados em Tróia, em 1992, entre a praia, Setúbal, o Ferry, os almoços de belo peixe grelhado na cidade ou por aqueles arredores? Havia um restaurante perto das Ruínas de Cetóbriga onde costumávamos ir e levávamos sempre os restos para alguns gatinhos que havia lá pelo complexo de Tróia.
Era Junho e calhou decorrer lá o Festróia, o festival anual de Cinema. No Encerramento do mesmo ia estar presente a Amália, que ambas amamos e que curiosamente nasceu no mesmo ano que tu (1920) e ainda partiu dois anos antes de ti.
Então lá fomos e assistimos ao descerrar de uma placa pela Amália, a quem também cumprimentámos, infelizmente não pude tirar uma foto desse momento.
De algumas fotos que tirei, aqui ficam duas, as únicas em que ficaste.

Aqui estavas a olhar a Amália, e também mais atrás o realizador José Fonseca e Costa cujo filho tinha sido teu aluno no Valsassina.
Como há tempos que não deves ouvir a Amália, isto julgo eu, que não sei se até não conversaram já lá onde estão... de qualquer modo trouxe uma canção dela para ouvirmos todas. Vais gostar de relembrar.
O Pai está um bocadinho trôpego, como deves calcular, mas lá vai sempre "lutando contra a maré" como ele diz... e à rua vai sempre de bengala. Felizmente a cabeça ainda trabalha melhor que muitas muito mais novas... ainda outro dia ao jantar disse as estações de combóio todas da Linha do Norte e os afluentes do Tejo, eu sei lá, e hoje "estabeleceu" que o número PI se chama assim, porque sendo interminável como irracional que é, começa no Paraíso e acaba no Inferno!...
O teu marido sempre foi destas ruminações... bem sabes o que foi cá em casa de engenhocas quando lhe deu para tentar conseguir o "moto perpétuo", com uns ímanes e umas bolas de metal que corriam numas calhas...
Ele e a Tia mandam beijinhos saudosos e eu também te deixo um grande beijinho, Mãe, e a canção da Amália.
Gaivota - Amália Rodrigues







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