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quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Semáforo






Paramos nós, do “lado de cá”.
Paramos nós, senhores da rua
e dos sinais exteriores de riqueza.

Avanças tu, a ver o que dá.
Avanças tu, face oculta da Lua.
Sinais exteriores: cansaço e magreza.






Esperamos nós, impacientes.
Esperamos nós, abrigados e quentes
em úteros de ferro com ar condicionado.

Saltitas tu, olhos inocentes.
Saltitas tu, pés semi-dormentes,
na mão já cinzenta, um papel rasgado:
“Tenho três irmãos e os pais doentes.”






Pensamos nós: “Tenhamos cuidado;
isto é treta certa, é tudo encenado.
O puto tem ar de quem foi treinado.”

Recuas tu, revolta entre-dentes,
e um travo amargo a gases poluentes:
“Isto hoje ´tá fogo! ´tou é bem lixado!






“Bolas, finalmente! Era tempo, já… ala, sem demora,
que estou atrasado mais de meia-hora!
Se perco o cliente, vou ouvir das boas…
Rai´s parta os vermelhos!
Não despacham nada, andamos à nora…
Que perda de tempo! Que atraso de vida!...






“Bolas, verde já? Isto assim não dá… o melhor, agora,
é desistir mesmo, ir andando embora…
Nem dez euros fiz! Vou ouvir das boas…
Rai´s parta estes verdes!
´tou fartinho deles, deviam d´ir fora,
sempre era mais tempo… que droga de vida!”

Aspásia 96


quinta-feira, 22 de novembro de 2007

CATEDRAL


Olhando ao longe a planura,
numa manhã outonal,
ergue-se a alta figura,
– Pai-Nosso em arquitectura –
duma antiga catedral.

É visão inesquecível,
aguarela austera e pura.
Majestosa, imperecível,
por artesão intangível
talhada na pedra dura.

Acerco-me lentamente
e em grandeza vai crescendo.
Sobre a pedra que não mente,
olho mais atentamente,
velha inscrição desvendo.

Sé pelo Homem erguida
para dar a Deus sinal
de fé na Lei recebida,
é promessa nesta vida,
esperando na Vida imortal.

Lugar de meditação,
abriga no coração
a qualquer que nela entre.
Não vê cor ou condição
nem mesmo faz distinção
entre o crente e o não-crente.

Cruzando o largo portal,
entro, sem fazer rumor.
Coalhado dum vitral,
irisa a água lustral
um reflexo multicor.

Sobre o altar principal,
em retábulo pintado,
o Anjo celestial
ergue a pedra sepulcral
a Jesus ressuscitado.

Oiço vozes de oração
que se elevam em espiral.
Pedirão, talvez, perdão,
ou tão só resignação
para tanta dor e mal.

O velho órgão harmoniza
um cântico angelical.
Não pede, não catequiza,
mas dá alma a quem precisa
– Sinfonia Pastoral.

Fôra eu crente e, talvez,
no meio desse coral
encontrasse a placidez,
esquecendo os mil porquês
da Ciência racional.

Assim, enquanto a visito,
não rezo, apenas medito,
banhada na luz claustral:
pudesse o caos inaudito,
ferro e dor, espanto e grito,
pesadelos do real,
dar lugar a um coral
– eco humano de Infinito…
e o Mundo enfim sem conflito,
mais perto do Ideal,
vogasse no mar infindo
do azul universal.

Aspásia 96


Allein Gott in der Höh´ sei Ehr

J.S. Bach
Órgão - Otto Winter

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

FIAT LUX
(Faça-se Luz)



Se apesar de duros, tristes desenganos,
por vezes em teus lábios desponta uma canção,
vê se ela traz consigo uma recordação
de outros, felizes, já longínquos anos.

Se apesar das pedras, dos cardos do caminho,
ainda prossegues, um sorriso por bandeira,
é porque em ti persiste ainda a fogueira
acesa em outros tempos com carinho.

Não cesse pois, em teus lábios, a canção;
não desfaleça em ti o lume da fogueira,
pois, após tempestades, sóis virão...

E a Luz será tão forte, tão certeira,
que fará cair tudo o que é vão
ao explodir nos céus como a primeira...

Aspásia 96


Bailero
(Canteloube)
Int: Kiri Te Kanawa

(Imagem da Net)

sábado, 3 de novembro de 2007

ÁRVORE

Fui buscar ao Velho Caramanchão esta Velha Árvore para a dedicar, em especial, à Nova Árvore da amiga Gasolina! Com votos de felicidades deste velho jardim para esse teu novo pomar e muitos beijinhos!



Na árvore que, agrilhoada à Terra,
altiva e temerária sonha erguer-se aos Céus,
qual a força, a chama, que afinal se encerra?
Será a Natureza? Será Deus??

(Foto e Poema - Aspásia 96)

terça-feira, 17 de julho de 2007

POEMA SÓ PARA ALGUNS QUE ESPERO NÃO SEJAM A MAIORIA...



Ó Homem, ser insensato!
Correm séculos… e tu
pouco cresceste do Nada.
Daninho, vaidoso e cru,
o corpo pões tu a nu,
− mas fica a alma tapada…

Vamos lá ver se consegues
sair desta vil tristeza…
E se entendes, se percebes,
que à luz da cósmica lei,
tu não és Deus nem és Rei…
− és apenas Natureza.



***

P.S. - Homem... em sentido lato, claro...


Aspásia 96

domingo, 21 de janeiro de 2007

FIAT LUX



Se apesar de duros, tristes desenganos,
por vezes em teus lábios desponta uma canção,
vê se ela traz consigo uma recordação
de outros, felizes, já longínquos anos.

Se apesar das pedras, dos cardos do caminho,
ainda prossegues, um sorriso por bandeira,
é porque em ti persiste ainda a fogueira
acesa em outros tempos com carinho.

Não cesse pois, em teus lábios, a canção;
não desfaleça em ti o lume da fogueira,
pois, após tempestades, sóis virão...

E a Luz será tão forte, tão certeira,
que fará cair tudo o que é vão
ao explodir nos céus como a primeira...

Aspásia 96


Bailero (Canteloube)
Kiri Te Kanawa

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Catedral


Catedral de León (Espanha)

Olhando ao longe a planura,
numa manhã outonal,
ergue-se a alta figura,
– Pai-Nosso em arquitectura –
duma antiga catedral.

É visão inesquecível,
aguarela austera e pura.
Majestosa, imperecível,
por artesão intangível
talhada na pedra dura.

Acerco-me lentamente
e em grandeza vai crescendo.
Sobre a pedra que não mente,
olho mais atentamente,
velha inscrição desvendo.

Sé pelo Homem erguida
para dar a Deus sinal
de fé na Lei recebida,
é promessa nesta vida,
esperando na Vida imortal.

Lugar de meditação,
abriga no coração
a qualquer que nela entre.
Não vê cor ou condição
nem mesmo faz distinção
entre o crente e o não-crente.

Cruzando o largo portal,
entro, sem fazer rumor.
Coalhado dum vitral,
irisa a água lustral
um reflexo multicor.

Sobre o altar principal,
em retábulo pintado,
o Anjo celestial
ergue a pedra sepulcral
a Jesus ressuscitado.

Oiço vozes de oração
que se elevam em espiral.
Pedirão, talvez, perdão,
ou tão só resignação
para tanta dor e mal.

O velho órgão harmoniza
um cântico angelical.
Não pede, não catequiza,
mas dá alma a quem precisa
– Sinfonia Pastoral.

Fôra eu crente e, talvez,
no meio desse coral
encontrasse a placidez,
esquecendo os mil porquês
da Ciência racional.

Assim, enquanto a visito,
não rezo, apenas medito,
banhada na luz claustral:
pudesse o caos inaudito,
ferro e dor, espanto e grito,
pesadelos do real,
dar lugar a um coral
– eco humano de Infinito…
e o Mundo enfim sem conflito,
mais perto do Ideal,
vogasse no mar infindo
do azul universal.

L.N. 96



"Allein Gott in der Höh´ sei Ehr" - J.S. Bach
(Otto Winter - Órgão)

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Semáforo






Paramos nós, do “lado de cá”.
Paramos nós, senhores da rua
e dos sinais exteriores de riqueza.

Avanças tu, a ver o que dá.
Avanças tu, face oculta da Lua.
Sinais exteriores: cansaço e magreza.






Esperamos nós, impacientes.
Esperamos nós, abrigados e quentes
em úteros de ferro com ar condicionado.

Saltitas tu, olhos inocentes.
Saltitas tu, pés semi-dormentes,
na mão já cinzenta, um papel rasgado:
“Tenho três irmãos e os pais doentes.”






Pensamos nós: “Tenhamos cuidado;
isto é treta certa, é tudo encenado.
O puto tem ar de quem foi treinado.”

Recuas tu, revolta entre-dentes,
e um travo amargo a gases poluentes:
“Isto hoje ´tá fogo! ´tou é bem lixado!






“Bolas, finalmente! Era tempo, já… ala, sem demora,
que estou atrasado mais de meia-hora!
Se perco o cliente, vou ouvir das boas…
Rai´s parta os vermelhos!
Não despacham nada, andamos à nora…
Que perda de tempo! Que atraso de vida!...






“Bolas, verde já? Isto assim não dá… o melhor, agora,
é desistir mesmo, ir andando embora…
Nem dez euros fiz! Vou ouvir das boas…
Rai´s parta estes verdes!
´tou fartinho deles, deviam d´ir fora,
sempre era mais tempo… que droga de vida!”

L.N.96



quarta-feira, 22 de março de 2006

Enigma da Árvore


Na árvore que, agrilhoada à Terra,
altiva e temerária sonha erguer-se aos Céus,
qual a força, a chama, que afinal se encerra?
Será a Natureza? Será Deus??
L.N. 96

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Poema Só Para Alguns


Ó Homem, ser insensato!
Correm séculos… e tu
pouco cresceste do Nada.
Daninho, vaidoso e cru,
o corpo pões tu a nu,
− mas fica a alma tapada…

Vamos lá ver se consegues
sair desta vil tristeza…
E se entendes, se percebes,
que à luz da cósmica lei,
tu não és Deus nem és Rei…
− és apenas Natureza.
***
L.N. 96