
Paramos nós, do “lado de cá”.
Paramos nós, senhores da rua
e dos sinais exteriores de riqueza.
Avanças tu, a ver o que dá.
Avanças tu, face oculta da Lua.
Sinais exteriores: cansaço e magreza.

Esperamos nós, impacientes.
Esperamos nós, abrigados e quentes
em úteros de ferro com ar condicionado.
Saltitas tu, olhos inocentes.
Saltitas tu, pés semi-dormentes,
na mão já cinzenta, um papel rasgado:
“Tenho três irmãos e os pais doentes.”

Pensamos nós: “Tenhamos cuidado;
isto é treta certa, é tudo encenado.
O puto tem ar de quem foi treinado.”
Recuas tu, revolta entre-dentes,
e um travo amargo a gases poluentes:
“Isto hoje ´tá fogo! ´tou é bem lixado!

“Bolas, finalmente! Era tempo, já… ala, sem demora,
que estou atrasado mais de meia-hora!
Se perco o cliente, vou ouvir das boas…
Rai´s parta os vermelhos!
Não despacham nada, andamos à nora…
Que perda de tempo! Que atraso de vida!...

“Bolas, verde já? Isto assim não dá… o melhor, agora,
é desistir mesmo, ir andando embora…
Nem dez euros fiz! Vou ouvir das boas…
Rai´s parta estes verdes!
´tou fartinho deles, deviam d´ir fora,
sempre era mais tempo… que droga de vida!”
Aspásia 96