sexta-feira, 11 de agosto de 2006

O Porto Sentido... a Sul


O Porto ao entardecer
(Foto
daqui)



Pelo "Porto Sentido" já eu ficara apaixonada desde a primeira audição. Para mim continua mesmo a ser a mais bela canção do Rui Veloso. Não só pelos versos e melodia incomparáveis, mas também porque, dedicada a uma cidade, parece também dirigida a alguns de nós em certas fases da vida.
Há um bom, mas mesmo bom par de anos, princípios de Março, fui passar uns breves dias de férias a um Algarve completamente primaveril. No caos do saco das cassettes de então, lá ia também uma do Rui Veloso. Os diazitos decorreram breves, algumas correrias para conhecer melhor o Barlavento, desde Quarteira ao Cabo de S.Vicente, ali, onde a terra acaba e o mar começa, gozando da hospitalidade de uma amiga de Lagos. O último dia, esse, aproveitado para descansar um pouco na paz e sossego de Pedras da Rainha, quase no extremo oposto. E na manhã seguinte, mesmo antes do regresso a Lisboa, carro já atafulhado, não resisto, um passeiozinho à beira da Formosa, o pinhal de Cabanas cá em cima, a ria lá em baixo, belezas estas já bem conhecidas de outras estadias, mas sempre saudosas, de tão distantes. E nessa altura do ano, imperturbadas pelas multidões estivais... Então, ideia brilhante, ouvir ali na luz, tão a Sul, o “Porto Sentido”… faria sentido??? Um dia já recuado, "o Corridinho foi dançando até Lisboa...", porque não levar eu agora o Porto ao Sotavento Algarvio? Digressão por sinal bem mais longa...
E na luminosidade feérica de um meio-dia algarvio, reflexos intensos na água azul e desabrochar de verdes atrás de mim, começo a ouvir a voz e a música do Rui e as palavras do Carlos Tê. Luzes sombrias, tons cinzentos, neblinas e lampiões, pedras sujas e gastas da sua bela Cidade, não pareceram entrar em conflito com a luz forte, o azul intenso, o claro areal algarvios. Belezas tão distantes – afinal se calhar só no mapa – mesmo ali não colidiam, complementavam-se, olhos e ouvidos estavam em harmonia,.. E, quando a canção chegou ao fim, jeito fechado de quem mói um sentimento e altivez de milhafre ferido na asa, percebi também não serem exclusivos de uma cidade ou lugar. Senti-os plenamente humanos e, por isso mesmo, universais.


A Praia de Cabanas
(Foto Aspásia)

* * *
Nota: Esta "história" passou-se em Abril de 1994. Foi lida no programa "História Devida" de dia 7 da Antena 1.




Neste mesmo dia, há 50 anos, meus Pais partiam para o Porto em lua-de-mel. Infelizmente, minha Mãe já não está connosco para hoje comemorarem as Bodas de Ouro. Fica mais esta recordação...

domingo, 23 de julho de 2006

Latinorius


Ave! Ora então vamos lá hoje à nossa aulazita de Latim Moderno. Se pensavam que o Latim é uma língua morta, desenganem-se! Leiam este texto, publicado há um par de anos na imprensa portuguesa…

* * *

Já experimentou ser obscena observandi cupido da sui ipsius nudator que passa na birota automataria? Não? E não será muito novissimorum morum affectator? Não sabe? Então o mais aconselhável à sua situação cultural é ler este texto até ao fim.
O Vaticano resolveu desenterrar o Latim, a língua oficial da Santa Sé. Visto que, durante largos anos, se tratou de uma “língua morta”, do seu vocabulário não constam muito dos termos hoje em dia utilizados frequentemente. A Fundação Vaticana Latinitas resolveu o problema. Após oito anos de aturados estudos, sob a coordenação do abade Carlo Egger, foi finalmente publicada a obra que permite a actualização do léxico latino.
O novo dicionário compila mais de 15 mil neologismos, a maioria dos quais empregados em todo o Mundo na língua original, o inglês ou o francês, cobrindo áreas como o desporto e as ciências. A apresentação do Lexicon Recentis Latinitas decorreu na Finlândia, em 2004. Aqui ficam alguns exemplos citados pelo jornal madrileno "El País":

Aparelho de vídeo - Instrumentum telehornamentis exceptorium.
Barman - Tabernae potoriae minister.
Best-seller - Liber máxime divenditus.
Café - Taberna cafearia.
Carruagem - cama - Currus dormitorius.
Champô - Capitilavium.
Computador - Instrumentum computatorium.
Discoteca - Ludus saltatorius.
IVA - Fiscale pretil additamentum.
Jeans - Bracae linteae caerúlae.
Mini-saia - Tunícula mínima.
Motocicleta - Birota automataria.
Motel - Deversorium autocinéticum.
Ovni - Res inexplicata volans.
Pizza - Placenta compresa.
Playboy - Iuvenis voluptarius.
Slalom – Descensio flexuosa.
Solteiro - Solitarius.
Snob - Novissimorum morum affectator.
Spot (de televisão) - Intercalatum laudativum nuntiun.
Spray – Liquor nubilogenus.
Stripteaser - Sui ipsius nudator.
Ténis (jogo) - Manubriati reticuli ludus.
VIP - Amplissimus vir.
Voyeur - Obscena observandi cupido.
WC – Cella intima.
Western - Fabula americae occidentalis.
Whisky - Vischium.


E x e m p l u m

Um Obscena Observandi Cupido observando uma Res Inexplicata Volans


* * *


Também podem ver aqui um divertido forum, em espanhol, que explica muito bem a construção das expressões latinas.

Bem, meus Amplissimus viris amicus, depois de fechar o Instrumentum telehornamentis exceptorium onde acabo de ver uma Fabula americae occidentalis, com o meu Iuvenis voluptarius, vou à Cella intima e depois, numa Descensio flexuosa, dirijo-me para o Currus dormitorius... Bona Nox!

Post Post-Scriptum - naturalmente, a este Post só se aceitam comentums scriptuns (ou comenta scripta) em Latim... faz favor de aproveitarem as férias para estudarem o Lexicon Recentis Latinitas ;))...



Ode Pentatónica para Martelo e Flauta de Pã, composta por Nero numa noite de insónia... esta Ode é muito eficaz, experimentem! Assim que adormecerem, podem pará-la...;))

sexta-feira, 14 de julho de 2006

EcoPoema de Nós


Sol nascente
Árvore Pássaro
mil cores e mil sons
Música Arco-Íris
dentro de Nós Ideal

Mar azul
Mãos unidas
procurando Reciprocidade
Pensamento Fogo em
Ardência total

Almas trocadas
no delírio da entrega
êxtase de sermos Um
(só possível)
na comunhão de Nós
com o Natural

Aspásia 96


"Discovering the World" - Z. Preisner

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Tortura e Vandalismo aos Animais

Caros Amigos

Tenho andado com pouco tempo para os Blogs, mas deixo esta notícia.
Este é o País que temos...
Os indefesos, sejam humanos ou animais, estão à mercê de outros "humanos".

Vandalismo na Afectu de Aveiro

Creio que houve animais (cães) torturados e mortos. Os autores devem ser primos daqueles que torturaram a Gisberta...
Se puderem, auxiliem! (está lá o NIB)

Beijinhos e até breve.

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Catedral


Catedral de León (Espanha)

Olhando ao longe a planura,
numa manhã outonal,
ergue-se a alta figura,
– Pai-Nosso em arquitectura –
duma antiga catedral.

É visão inesquecível,
aguarela austera e pura.
Majestosa, imperecível,
por artesão intangível
talhada na pedra dura.

Acerco-me lentamente
e em grandeza vai crescendo.
Sobre a pedra que não mente,
olho mais atentamente,
velha inscrição desvendo.

Sé pelo Homem erguida
para dar a Deus sinal
de fé na Lei recebida,
é promessa nesta vida,
esperando na Vida imortal.

Lugar de meditação,
abriga no coração
a qualquer que nela entre.
Não vê cor ou condição
nem mesmo faz distinção
entre o crente e o não-crente.

Cruzando o largo portal,
entro, sem fazer rumor.
Coalhado dum vitral,
irisa a água lustral
um reflexo multicor.

Sobre o altar principal,
em retábulo pintado,
o Anjo celestial
ergue a pedra sepulcral
a Jesus ressuscitado.

Oiço vozes de oração
que se elevam em espiral.
Pedirão, talvez, perdão,
ou tão só resignação
para tanta dor e mal.

O velho órgão harmoniza
um cântico angelical.
Não pede, não catequiza,
mas dá alma a quem precisa
– Sinfonia Pastoral.

Fôra eu crente e, talvez,
no meio desse coral
encontrasse a placidez,
esquecendo os mil porquês
da Ciência racional.

Assim, enquanto a visito,
não rezo, apenas medito,
banhada na luz claustral:
pudesse o caos inaudito,
ferro e dor, espanto e grito,
pesadelos do real,
dar lugar a um coral
– eco humano de Infinito…
e o Mundo enfim sem conflito,
mais perto do Ideal,
vogasse no mar infindo
do azul universal.

L.N. 96



"Allein Gott in der Höh´ sei Ehr" - J.S. Bach
(Otto Winter - Órgão)

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Notícia Triste

Caros Amigos

No preciso momento em que aqui vinha, acabei de receber a notícia do falecimento da minha querida médica Dr.ª Lídia Gonçalves, aos 56 anos. Como já aqui tinha dito, uma grande Médica e Senhora, já gravemente doente continuou ao serviço das mulheres até mais não poder.

Muitas vidas ela ajudou a trazer ao mundo. A Drª Lídia foi Directora do serviço de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria e trabalhou na Clínica Feminis.

Caso alguma de vós, amigas, a tenha conhecido ou conheça alguma amiga sua paciente, informo que a Dr.ª Lídia se encontrará desde as 17 horas de hoje na Igreja de Santa Joana Princesa em Alvalade, realizando-se o seu funeral amanhã às 11H para o Cemitério dos Olivais.
Assim se perde uma Senhora de raro valor profissional e superior qualidade humana.

Um beijinho para todos.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Ode à Tertúlia

Aos "Tertulianos"


Um dia mais convosco, companheiros,
"Irmãos" leais, d'ontem, d'hoje, colegas,
tentando recordar memórias cegas,
gastas de já nem sei quantos Janeiros!

Oh coração que ousaste mil anseios
e pulsações ardentes que não negas,
doces e amargos, da Vida nas refregas:
ignora os fracassos, lembra enleios!

Secaram flores, esmoreceu o lume.
Nas páginas do livro, intercaladas,
pétalas secas choram seu queixume.

Abre o teu livro... e as flores olvidadas
que enfeitaram tranças, mãos prendadas,
te deixarão no ar subtil perfume!


Rui Nascimento

Almoço da "Tertúlia Damião de Odemira"
Novembro, 10 - 2003.

domingo, 18 de junho de 2006

Festa de Aniversário do Mestre Rui Nascimento

Realizada antecipadamente no Restaurante China Li Do em Lisboa, em 12 de Junho de 2006, com a Tertúlia Damião de Odemira (*). O Mestre Rui Nascimento nasceu em Setúbal, em 14 de Junho de 1914.



Aspecto da mesa. Em 1º plano, o Mestre Internacional Joaquim Durão, Presidente da Federação Portuguesa de Xadrez e esposa D.ª Pilar



Eu, meu Pai Rui Nascimento e Mestre Durão



Um sopro de 92 anos... mas com a força de 29!



O Aniversariante executa um trilo... enquanto o amigo Durão degusta... um grilo! ;))) (salvo seja...)



Mestres Problemistas José Vinagre e Mariz Graça e Eng. Pedro Silva Araújo



Mestre Mário Silva Araújo, autor do livro "Rui Nascimento, uma Vida Dedicada ao Xadrez" e esposa



Dado o seu sucesso ao Violino, o Paganini acabou sendo "contratado" para abrilhantar, noutra mesa, o aniversário de casamento de um simpático jovem par...


(*) - Tertúlia aberta não só ao Xadrez como a qualquer actividade cultural ou artística. Aceitam-se membros!



Ao Violino, seu 2º Hobby - "Señor Comisario (tango) - Samaritana (fado) - Adiós, Pampa Mía (tango)".

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Parabéns, Pai!

A meu Pai, que hoje completa 92 belos anos, dedico estas "rimas". Perdoem o orgulho da filha babada...



Neste dia memorável,
perante nobre assembleia,
ocorreu à filha a ideia
de rimar ao pai amável,



que ao Xadrez tem dedicado,
principalmente, a existência;
mas também, com excelência,
noutras Artes é versado.



O Problema de Xadrez,
p´ra ele não tem segredo.
Compõe, sem dúvida ou medo,
mates em dois e em três.


Problemas figurativos,
tecendo belas imagens,
dedicou a personagens
ilustres, mortos ou vivos.



A concursos variados
apresenta seu trabalho
e, sempre sem enxovalho,
fica bem classificado.

Mas se a Musa do Xadrez
foi a que mais o inspirou,
as outras, que cultivou,
não deixou em pequenez.

De Erato, melodiosa,
aprendeu, sem desatino,
a arrancar do violino,
tango ou valsa primorosa...


A mesma Musa formosa,
o inspirou na Poesia:
num repente e com mestria,
verseja com mote e glosa.


Dos livros é grande amigo,
quer versem Arte ou Ciência,
e na arte da eloquência
não passa despercebido.


Grande leitor de jornais,
das Letras grande amador,
chegou a dizer, de cór,
“A Ceia dos Cardeais”!...


Às mais exactas Ciências,
com afinco se aplicou,
e também não desprezou,
dos astros, as refulgências!


De Arquimedes às Ideias,
ou de Einstein às Teorias,
dedicou noites e dias,
desenredando essas teias...



Do Tempo leva vitória,
os cometas observou...
E, de Vénus, contemplou
a apolínea trajectória! (*)



Os amigos dedicados
nunca da memória tira...
por Damião de Odemira,(**)
os traz, sempre, convocados!



Já longo é o seu trajecto,
mas não se dá por vencido...
amanhã, ao sol nascido,
já ensaia outro projecto!


Da Razão, Justiça e Bem
Paladino se tornou,
Esposo amável se mostrou,
Pai muito amigo também;
histórias conta mil e cem
que a todo o que escuta encantam...
Noventa e dois “já cá cantam”...
Cá estaremos para os Cem!!! (***)

X C I I em M M V I

* * *

(*) - O trânsito de Vénus.
(**) - A Tertúlia "Damião de Odemira", de que foi fundador.
(***) - Pelo menos!




Ao Violino, seu 2º Hobby
- Señor Comisario (tango)
- Samaritana (fado) - Adiós, Pampa Mía (tango)

sábado, 10 de junho de 2006

Camões no Mundo


Lusiada Italiana di Carlo Antonio Paggi nobile Genouese poema eroico del grande Luigi de Camoes Portoghese prencipe de’ poeti delle Spagne. Lisbona : por Henrico Valente de Oliueira, 1659

Canto III
119

Poi di questa si prospera vittoria
Tornato Afonso á la paterna terra,
De la pace a goder cotanta gloria,
Quanta acquistó ne la si dura guerra.
Il caso triste e degno di memoria,
Che li sepolti auuiua, e disinterra
Succedeo de la misera e meschina,
Che doppo morte diuentò Reina.

(episódio de Inês de Castro)

Neste dia dedicado ao Príncipe dos Poetas, eis uma curiosidade que só vem provar como logo o valor dos seus “Lusíadas”, pouco depois da sua publicação foi reconhecido internacionalmente pelos homens cultos do tempo.

“Em 1658 o genovês Carlo Antonio Paggi, diplomata da República de Génova em Portugal traduz para italiano a primeira versão conhecida nesta língua d’Os Lusíadas. A obra é publicada em Lisboa e dedicada ao Papa Alessandro VII. Fora da Península Ibérica, é italiana a segunda tradução do poema épico português sendo a primeira uma tradução inglesa de Fanshaw. Nesta tradução de Paggi temos várias dedicatórias que são, do ponto de vista comparativista, estratégias do tradutor relativamente à forma de como pode condicionar a recepção do texto. Nas dedicatórias são dadas indicações de leitura, esclarecimentos históricos, associações míticas que sistematizam uma imagem de Camões e do poema épico português que já circulava nos ambientes cultos italianos desta época. Paggi vai ser a fonte implícita de muitas traduções d’Os Lusíadas e a sua atitude crítica perante o poema e, sobretudo, perante a biografia do poeta, vai ser objecto de muitas especulações literárias e biográficas.”

In “O mito de Camões em Itália: da elaboração mítica aos parâmetros ideológicos nacionalistas” - Henrique de Almeida Chaves




Entretanto, estamos a ouvir o "Tiento para arpa", de um contemporâneo de Camões, o Padre Manuel Rodrigues Coelho (1555?-1635), Organista na Capela Real em Lisboa de 1604 a 1633.


Infelizmente, a sina de Camões, miserável em vida e exaltado depois da morte, continua a ser a de muitos Portugueses de valor em todos os campos da Arte e da Ciência… e muitas vezes, só no estrangeiro conseguem, em vida, receber o justo elogio e paga pelas suas obras… ai, ai, Lusitano Fado!!!

terça-feira, 23 de maio de 2006

Soneto de la Luna



La luna nos buscó desde su almena,
cantó la acequia, palpitó el olivo.
Mi corazón, intrépido y cautivo,
tendió las manos, fiel a tu cadena.

Qué sábanas de yerba y luna llena
envolvieron el acto decisivo.
Qué mediodía sudoroso y vivo
enjalbegó la noche de azucena.

Por las esquinas verdes del encuentro
las caricias, ansiosas, se perdían
como en una espesura, cuerpo adentro.

Dios y sus cosas nos reconocían.
De nuevo giró el mundo, y en su centro
dos bocas, una a otra, se bebían.

* * *

almena - ameia(s)
acequia - regato
sábana - lençol
enjalbegar - caiar

* * *


António Gala, Poeta Andaluz do Amor



Poeta espanhol nascido em Córdova em 2 de Outubro de 1936, precisamente o ano da morte do grande Poeta também andaluz, Federico García Lorca, de quem até parece ter herdado o talento. Don António faz pois 70 anos este ano. É licenciado em Direito, Filosofia e Letras e Ciências Políticas e Económicas.
Tem cultivado todos os géneros literários, incluindo o jornalismo, a narração, o ensaio e o guião televisivo.
Obteve numerosos prémios, não apenas pela Poesia mas também pela seu valioso contributo ao Teatro e à Ópera ("Carmen, Carmen", 1976).
Os Prémios Calderón de la Barca, Nacional de Literatura, Adonais e Planeta, e a medalha de Ouro de Ubeda y Baeza foram os seus galardões mais significativos. É Doutor "honoris causa" pela Universidad de Córdoba e Prémio César González Ruano de Jornalismo por "Mis charlas con Troylo". En 1983 recebeu o "Libro de Oro", premio dos editores. Em 1989 foi galardoado com o Prémio Andalucía de las Letras e com o Prémio León Felipe aos Valores Cívicos.
Foi colaborador de "El País Semanal" durante muitos anos com séries de magníficas crónicas, nomeadamente as "Cartas a los Herederos" (posso afirmá-lo porque li bastantes).
Da sua obra poética destacam-se as seguintes publicações: «Enemigo íntimo», «Sonetos de La Zubia», «Poemas de amor» e «Testamento Andaluz».
Actualmente decorre na TVE o seu programa "El Loco de la Colina".
Em Portugal foi representada a sua peça "Samarkanda" (produção de Norberto Barroca) e tem um romance publicado, A Paixão Turca.



Disse António Gala, digno herdeiro da tradição árabe-muçulmana:

Olho os olivais, respiro fundo e sei que ainda estou vivo; que, de alguma maneira, estarei vivo sempre. E ponho-me a cantar em silêncio uma canção que não se aprende; o sangue sussurra ao ouvido cada sangue novo. Uma canção que repete que todo o ser é importante, porque sem ele a Natureza não seria como é, nem estaria completa. Todo o ser é uma gota de orvalho que dura o que dura a noite. Inextinguivelmente, a noite repetir-se-á e repetir-se-ão o orvalho e a erva e o primeiro plenilúnio de Dezembro sobre campos e praias. Porque a vida não se acaba nunca.
Porque o que uma vez sucedeu, sucede para sempre.


Aqui podem ler uma belíssima entrevista acerca do seu livro "El Dueño de la Herida" (2003)


Soneto de la Luna, numa magnífica interpretação de Clara Montes

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Obras em Casa...


Não tenho tido ambiente para criar...

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Semáforo






Paramos nós, do “lado de cá”.
Paramos nós, senhores da rua
e dos sinais exteriores de riqueza.

Avanças tu, a ver o que dá.
Avanças tu, face oculta da Lua.
Sinais exteriores: cansaço e magreza.






Esperamos nós, impacientes.
Esperamos nós, abrigados e quentes
em úteros de ferro com ar condicionado.

Saltitas tu, olhos inocentes.
Saltitas tu, pés semi-dormentes,
na mão já cinzenta, um papel rasgado:
“Tenho três irmãos e os pais doentes.”






Pensamos nós: “Tenhamos cuidado;
isto é treta certa, é tudo encenado.
O puto tem ar de quem foi treinado.”

Recuas tu, revolta entre-dentes,
e um travo amargo a gases poluentes:
“Isto hoje ´tá fogo! ´tou é bem lixado!






“Bolas, finalmente! Era tempo, já… ala, sem demora,
que estou atrasado mais de meia-hora!
Se perco o cliente, vou ouvir das boas…
Rai´s parta os vermelhos!
Não despacham nada, andamos à nora…
Que perda de tempo! Que atraso de vida!...






“Bolas, verde já? Isto assim não dá… o melhor, agora,
é desistir mesmo, ir andando embora…
Nem dez euros fiz! Vou ouvir das boas…
Rai´s parta estes verdes!
´tou fartinho deles, deviam d´ir fora,
sempre era mais tempo… que droga de vida!”

L.N.96



sexta-feira, 12 de maio de 2006

Parabéns, Manuel Alegre


O Poeta e Paladino da Liberdade faz hoje 70 anos. Recordemos a sua Canção com Lágrimas, dedicada a um grande amigo perdido na Guerra Colonial, e interpretada por Adriano Correia de Oliveira.



Eu canto para ti o mês das giestas
O mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti o mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti Lisboa e o sol,
Lisboa com lágrimas Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...

quarta-feira, 3 de maio de 2006

Carta ao Amigo



Olá, Amigo, resolvi escrever-te
só para dizer que não há nada de novo.

Olha, saí, meti-me no carro
e chegando ao semáforo seguinte
vi o mesmo pedinte
com que há anos deparo.
Dei-lhe uma moeda de vinte.

Na fila de trânsito,
vi as mesmas caras agressivas
por dentro dos vidros embaciados.
Sorrisos não vi, nem expressões vivas:
só olhares cansados.

Também quis entrar no café,
mas era tal a fumaça lá dentro
que achei melhor adiar o momento
e fugi dali a sete pés.

Deu-me para comprar o jornal,
mas também não sei para quê:
já ontem, na TV, disseram tudo igual.

Parece que o principal
é que caiu um avião no Mar do Norte.
Mas olha, tiveram sorte:
dos noventa só morreram vinte e tal,
incluindo um doente de Sida, por sinal,
a quem já tinham lido a sentença de morte.

Os pais do rapaz até deram graças
por ele ir de repente
e não o verem mais pela casa
a morrer lentamente.
Das famílias dos outros vinte e tal
é que não sei o que disseram,
não vinha no jornal,
talvez não tenha sido tão sensacional.

Como vês, vai tudo normal.

Passei ali pelos arredores
e lá estavam os arrumadores
à porta do Centro Comercial
a arrumarem os senhores doutores.
Também estavam uns ciganos vendedores
discutindo com eles um espaço vital
para estenderem no chão uns cobertores
onde exporem o material.
Mas apareceu um carro da polícia
e debandaram todos por igual.

Enfim, virão tempos melhores.

De saúde, olha, vou assim-assim,
uns dias pior, outros menos mal.
Que se há-de fazer? É fatal.

E assim cheguei ao fim.
Como vês, não há nada de especial.
Fica bem, ou, pelo menos, tu também, menos mal.

Tua,
L.

Aspásia 99

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Dia do Trabalhador


TRABALHA-DOR

Infelizmente, ainda há muitos para quem o trabalho é dor. Não os esqueçamos neste dia.

domingo, 30 de abril de 2006

Gostei muito...

...do lançamento de "O Tempo dos Espelhos" do nosso Julinho. A Inês esteve à altura. Nas suas palavras conseguiu espelhar a delicadeza da escrita do autor e também a amizade que os liga, apesar dos diferentes temperamentos... ou até por causa disso mesmo.
Já opinei nos comentários do Murcon, mas "repito-o" aqui por outras palavras: foi um fim de tarde e noite muito especiais. Foi um encontro material de pessoas que já se tinham tocado espiritualmente.
Alguma curiosidade entretanto acumulada ficou satisfeita, não totalmente, claro... pois também um pouco de mistério só faz bem... e convém cada qual ter os seus jardins secretos, quer no amor, quer na amizade. Pelo menos é o que eu penso.



Escolhi esta "Memory" (do musical Cats) para celebrar um convívio que não se apagará da nossa memória.


Fiquem todos bem.

terça-feira, 25 de abril de 2006

Defendamos Abril!


Ó belo cravo de Abril,
querem fazer-te murchar.
Há para aí farsantes mil
que te querem pôr a andar.

Mas, cravo, não te amedrontes!
Outros há, que, sem temer,
por cidades, vilas, montes,
não te deixarão morrer!

domingo, 23 de abril de 2006

William Shakespeare (1564-1616)

Comemora-se hoje o 390º aniversário da morte do grande Poeta e Dramaturgo inglês. Quem estever interessado pode ver uma pequena homenagem, muito relacionada com Música, que fiz em A Flauta de Pã.
Beijinhos e bom Domingo para todos!

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Aula de Dança Grega



HASAPIKOS - Raleigh International Folkdancers

Yassou, file moi!!! (Olá, caros amigos!)

Hoje na Escola de Tagrélia tivemos aula de Dança Grega... como podem ver e ouvir!!! E com o Professor Apoliniopoulos, que é um gatão!!! Até fiquei tonta... com tanta reviravolta, suas mentes perversas!... Estou que não me tenho de pé... Por isso já disse ao servo Batrákius que apagasse as lamparinas de azeite e me armasse o mosquiteiro, que eu já devia era estar em vale de lençóis!

Kalinixta e Fillis! (Boa noite e Beijos)

quinta-feira, 20 de abril de 2006

O Acto de Criação

O ACTO DE CRIAÇÃO É DE NATUREZA OBSCURA.
NELE É IMPOSSÍVEL DESTRINÇAR O QUE É DA RAZÃO E O QUE DO INSTINTO, O QUE É DO MUNDO E O QUE É DA TERRA.
(Eugénio de Andrade in "O Sacrifício de Ifigénia")

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Notícias frescas de Mileto

Mileto, 19 Aprilius, 450 a.C.
O meu retrato pintado pela minha Mestra Tagrélia

Kalispera, Amigos de 2006 d.C.!!!

Escrevo-vos desde Mileto, capital da Jónia, onde tenho estado a passar uns dias. Fiquei sem ler os vossos papiros, pois o meu mensageiro núbio Batrákius fez greve, queixando-se dos poucos dracmas que eu esforçadamente lhe pago, e teve a audácia de exigir um aumento!!! Hoje em dia não se pode a gente fiar na criadagem…

Assim, tenho aproveitado o tempo a reler e catalogar a poesia de meu Pai, "Axioco", de 91 anos… e felizmente com mais saúde e menos preguiça do que eu! Ele é versado em muitas Artes, sendo a principal o
Problema de Xadrez, sobre o qual escreveu um Cartapácio.

Também tenho frequentado a Escola de Tagrélia, minha Mestra em Matemática, Filosofia, Política, Culinária, Caligrafia, Contabilidade, Estética, Poesia, Escultura, Pintura, Artes, Canto, Dança, Desporto, Fisioculturismo, Oratória, Declamação e… calculem… Artes Amatórias!!! Uma mulher, hoje em dia, além de já o ser... ainda se vê Grega... com o que tem de saber para enamorar, de corpo e alma, um Cidadão Ateniense!

Mas a Disciplina que agora mais me tem ocupado é a Música… pois a Tagrélia está a ensinar-me a construir uma…
Flauta de Pã!

De modo que em breve vou pôr as vossas missivas e do nosso Mestre Philosophus Murcon, o Sibarita ;))))), em dia. Agora vou é dormir uma sesta debaixo da romãzeira!

Ósculos para todos vós da
Aspásia de Mileto

segunda-feira, 17 de abril de 2006

Poema de meu Pai, Axioco de Mileto


Meu Pai, "Axioco de Mileto"

Como ainda estamos na quadra pascal, aqui deixo um soneto de meu Pai, "Axioco de Mileto" (pai de Aspásia), hoje com 91 anos, e que com ele concorreu - faz hoje 65 anos! - aos Jogos Florais da Primavera realizados em Setúbal, em 18 de Abril de 1941, organizados pela Associação dos Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial “João Vaz”, tendo obtido o 1º Prémio em soneto clássico.
Apesar de ser ateu, ele lá versejou de modo a fazer inveja a muito crente!!! (desculpem a imodéstia da filha babada…).


Redenção

A Treva cai na Terra e vem impôr
pesado luto à turba que emudece.
No Gólgota, escalvado, a Cruz parece
a trágica visão da própria dor.

Crucificado, exangue, o Redentor,
de espinhos coroado, a Vida oferece,
em Santo Sacrifício, que trouxesse
a salvação ao Mundo pecador.

Debalde, ó lei humana, condenaste
Aquele que pregou a Lei dos Céus
e com ferro assassino O trespassaste!

Jesus rasgou da Morte os negros véus
e vencendo a mentira que afirmaste,
deu a Verdade ao Mundo: a Fé em Deus!

R. C. Nascimento, 1941

sábado, 15 de abril de 2006

Estive a arrumar o jardim... para vos poder desejar...

!!!!!!!!!!!!!!!!
...e pedir desculpa pela desarrumação que encontraram os que vieram ao Jardim, nomeadamente o Odisseus! É que estive tão entretida na construção d´ A Flauta de Pã, que deixei cair alguns bocados aqui no quintal! O Péricles já me fez cara feia e já me disse que não me leva a Cartago nas mini-férias... mas já sacrifiquei um ovo de chocolate gigante a Afrodite a ver se ainda o amanso a tempo!!!
Beijinhos amendoados para todos!!!
P.S. - Odisseus, desculpa teres encontrado o Jardim ontem naquele desmazelo; e vou tentar copiar o teu comentário para este novo papiro!...

segunda-feira, 10 de abril de 2006

Poema da Desarrumação

Passo o tempo a fazer "versos"
e quadras de pé-quebrado...
no chão há papéis dispersos,
está tudo desarrumado.

Esta casa é um virote
de papelada e poeira...
mas eu só penso no mote
para nova versalheira.

Amigos, não vos convido
para virem cá a casa...
isto está tudo obstruído,
parece a faixa de Gaza.

No dia em que, finalmente,
me deixar de poesias,
prometo, solenemente,
tornar-me mulher-a-dias!!!
Aspásia 98
Imagem retirada da Net

sábado, 8 de abril de 2006

O Amor e a Amizade


O Amor pergunta à Amizade:
"Mas para que é que tu serves?"
E a Amizade responde:
"Sirvo para limpar as lágrimas que tu deixas cair!"

Bom fim de semana... e aproveitem para gozar bem os vossos amores e amizades! :)

segunda-feira, 3 de abril de 2006

E continua a faltar...

Quando eu nasci, as frases que haviam de salvar a Humanidade já estavam todas escritas. Só faltava uma coisa: salvar a Humanidade.

Almada Negreiros