terça-feira, 23 de maio de 2006

Soneto de la Luna



La luna nos buscó desde su almena,
cantó la acequia, palpitó el olivo.
Mi corazón, intrépido y cautivo,
tendió las manos, fiel a tu cadena.

Qué sábanas de yerba y luna llena
envolvieron el acto decisivo.
Qué mediodía sudoroso y vivo
enjalbegó la noche de azucena.

Por las esquinas verdes del encuentro
las caricias, ansiosas, se perdían
como en una espesura, cuerpo adentro.

Dios y sus cosas nos reconocían.
De nuevo giró el mundo, y en su centro
dos bocas, una a otra, se bebían.

* * *

almena - ameia(s)
acequia - regato
sábana - lençol
enjalbegar - caiar

* * *


António Gala, Poeta Andaluz do Amor



Poeta espanhol nascido em Córdova em 2 de Outubro de 1936, precisamente o ano da morte do grande Poeta também andaluz, Federico García Lorca, de quem até parece ter herdado o talento. Don António faz pois 70 anos este ano. É licenciado em Direito, Filosofia e Letras e Ciências Políticas e Económicas.
Tem cultivado todos os géneros literários, incluindo o jornalismo, a narração, o ensaio e o guião televisivo.
Obteve numerosos prémios, não apenas pela Poesia mas também pela seu valioso contributo ao Teatro e à Ópera ("Carmen, Carmen", 1976).
Os Prémios Calderón de la Barca, Nacional de Literatura, Adonais e Planeta, e a medalha de Ouro de Ubeda y Baeza foram os seus galardões mais significativos. É Doutor "honoris causa" pela Universidad de Córdoba e Prémio César González Ruano de Jornalismo por "Mis charlas con Troylo". En 1983 recebeu o "Libro de Oro", premio dos editores. Em 1989 foi galardoado com o Prémio Andalucía de las Letras e com o Prémio León Felipe aos Valores Cívicos.
Foi colaborador de "El País Semanal" durante muitos anos com séries de magníficas crónicas, nomeadamente as "Cartas a los Herederos" (posso afirmá-lo porque li bastantes).
Da sua obra poética destacam-se as seguintes publicações: «Enemigo íntimo», «Sonetos de La Zubia», «Poemas de amor» e «Testamento Andaluz».
Actualmente decorre na TVE o seu programa "El Loco de la Colina".
Em Portugal foi representada a sua peça "Samarkanda" (produção de Norberto Barroca) e tem um romance publicado, A Paixão Turca.



Disse António Gala, digno herdeiro da tradição árabe-muçulmana:

Olho os olivais, respiro fundo e sei que ainda estou vivo; que, de alguma maneira, estarei vivo sempre. E ponho-me a cantar em silêncio uma canção que não se aprende; o sangue sussurra ao ouvido cada sangue novo. Uma canção que repete que todo o ser é importante, porque sem ele a Natureza não seria como é, nem estaria completa. Todo o ser é uma gota de orvalho que dura o que dura a noite. Inextinguivelmente, a noite repetir-se-á e repetir-se-ão o orvalho e a erva e o primeiro plenilúnio de Dezembro sobre campos e praias. Porque a vida não se acaba nunca.
Porque o que uma vez sucedeu, sucede para sempre.


Aqui podem ler uma belíssima entrevista acerca do seu livro "El Dueño de la Herida" (2003)


Soneto de la Luna, numa magnífica interpretação de Clara Montes

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Obras em Casa...


Não tenho tido ambiente para criar...

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Semáforo






Paramos nós, do “lado de cá”.
Paramos nós, senhores da rua
e dos sinais exteriores de riqueza.

Avanças tu, a ver o que dá.
Avanças tu, face oculta da Lua.
Sinais exteriores: cansaço e magreza.






Esperamos nós, impacientes.
Esperamos nós, abrigados e quentes
em úteros de ferro com ar condicionado.

Saltitas tu, olhos inocentes.
Saltitas tu, pés semi-dormentes,
na mão já cinzenta, um papel rasgado:
“Tenho três irmãos e os pais doentes.”






Pensamos nós: “Tenhamos cuidado;
isto é treta certa, é tudo encenado.
O puto tem ar de quem foi treinado.”

Recuas tu, revolta entre-dentes,
e um travo amargo a gases poluentes:
“Isto hoje ´tá fogo! ´tou é bem lixado!






“Bolas, finalmente! Era tempo, já… ala, sem demora,
que estou atrasado mais de meia-hora!
Se perco o cliente, vou ouvir das boas…
Rai´s parta os vermelhos!
Não despacham nada, andamos à nora…
Que perda de tempo! Que atraso de vida!...






“Bolas, verde já? Isto assim não dá… o melhor, agora,
é desistir mesmo, ir andando embora…
Nem dez euros fiz! Vou ouvir das boas…
Rai´s parta estes verdes!
´tou fartinho deles, deviam d´ir fora,
sempre era mais tempo… que droga de vida!”

L.N.96



sexta-feira, 12 de maio de 2006

Parabéns, Manuel Alegre


O Poeta e Paladino da Liberdade faz hoje 70 anos. Recordemos a sua Canção com Lágrimas, dedicada a um grande amigo perdido na Guerra Colonial, e interpretada por Adriano Correia de Oliveira.



Eu canto para ti o mês das giestas
O mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti o mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti Lisboa e o sol,
Lisboa com lágrimas Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...

quarta-feira, 3 de maio de 2006

Carta ao Amigo



Olá, Amigo, resolvi escrever-te
só para dizer que não há nada de novo.

Olha, saí, meti-me no carro
e chegando ao semáforo seguinte
vi o mesmo pedinte
com que há anos deparo.
Dei-lhe uma moeda de vinte.

Na fila de trânsito,
vi as mesmas caras agressivas
por dentro dos vidros embaciados.
Sorrisos não vi, nem expressões vivas:
só olhares cansados.

Também quis entrar no café,
mas era tal a fumaça lá dentro
que achei melhor adiar o momento
e fugi dali a sete pés.

Deu-me para comprar o jornal,
mas também não sei para quê:
já ontem, na TV, disseram tudo igual.

Parece que o principal
é que caiu um avião no Mar do Norte.
Mas olha, tiveram sorte:
dos noventa só morreram vinte e tal,
incluindo um doente de Sida, por sinal,
a quem já tinham lido a sentença de morte.

Os pais do rapaz até deram graças
por ele ir de repente
e não o verem mais pela casa
a morrer lentamente.
Das famílias dos outros vinte e tal
é que não sei o que disseram,
não vinha no jornal,
talvez não tenha sido tão sensacional.

Como vês, vai tudo normal.

Passei ali pelos arredores
e lá estavam os arrumadores
à porta do Centro Comercial
a arrumarem os senhores doutores.
Também estavam uns ciganos vendedores
discutindo com eles um espaço vital
para estenderem no chão uns cobertores
onde exporem o material.
Mas apareceu um carro da polícia
e debandaram todos por igual.

Enfim, virão tempos melhores.

De saúde, olha, vou assim-assim,
uns dias pior, outros menos mal.
Que se há-de fazer? É fatal.

E assim cheguei ao fim.
Como vês, não há nada de especial.
Fica bem, ou, pelo menos, tu também, menos mal.

Tua,
L.

Aspásia 99

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Dia do Trabalhador


TRABALHA-DOR

Infelizmente, ainda há muitos para quem o trabalho é dor. Não os esqueçamos neste dia.

domingo, 30 de abril de 2006

Gostei muito...

...do lançamento de "O Tempo dos Espelhos" do nosso Julinho. A Inês esteve à altura. Nas suas palavras conseguiu espelhar a delicadeza da escrita do autor e também a amizade que os liga, apesar dos diferentes temperamentos... ou até por causa disso mesmo.
Já opinei nos comentários do Murcon, mas "repito-o" aqui por outras palavras: foi um fim de tarde e noite muito especiais. Foi um encontro material de pessoas que já se tinham tocado espiritualmente.
Alguma curiosidade entretanto acumulada ficou satisfeita, não totalmente, claro... pois também um pouco de mistério só faz bem... e convém cada qual ter os seus jardins secretos, quer no amor, quer na amizade. Pelo menos é o que eu penso.



Escolhi esta "Memory" (do musical Cats) para celebrar um convívio que não se apagará da nossa memória.


Fiquem todos bem.

terça-feira, 25 de abril de 2006

Defendamos Abril!


Ó belo cravo de Abril,
querem fazer-te murchar.
Há para aí farsantes mil
que te querem pôr a andar.

Mas, cravo, não te amedrontes!
Outros há, que, sem temer,
por cidades, vilas, montes,
não te deixarão morrer!

domingo, 23 de abril de 2006

William Shakespeare (1564-1616)

Comemora-se hoje o 390º aniversário da morte do grande Poeta e Dramaturgo inglês. Quem estever interessado pode ver uma pequena homenagem, muito relacionada com Música, que fiz em A Flauta de Pã.
Beijinhos e bom Domingo para todos!

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Aula de Dança Grega



HASAPIKOS - Raleigh International Folkdancers

Yassou, file moi!!! (Olá, caros amigos!)

Hoje na Escola de Tagrélia tivemos aula de Dança Grega... como podem ver e ouvir!!! E com o Professor Apoliniopoulos, que é um gatão!!! Até fiquei tonta... com tanta reviravolta, suas mentes perversas!... Estou que não me tenho de pé... Por isso já disse ao servo Batrákius que apagasse as lamparinas de azeite e me armasse o mosquiteiro, que eu já devia era estar em vale de lençóis!

Kalinixta e Fillis! (Boa noite e Beijos)

quinta-feira, 20 de abril de 2006

O Acto de Criação

O ACTO DE CRIAÇÃO É DE NATUREZA OBSCURA.
NELE É IMPOSSÍVEL DESTRINÇAR O QUE É DA RAZÃO E O QUE DO INSTINTO, O QUE É DO MUNDO E O QUE É DA TERRA.
(Eugénio de Andrade in "O Sacrifício de Ifigénia")

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Notícias frescas de Mileto

Mileto, 19 Aprilius, 450 a.C.
O meu retrato pintado pela minha Mestra Tagrélia

Kalispera, Amigos de 2006 d.C.!!!

Escrevo-vos desde Mileto, capital da Jónia, onde tenho estado a passar uns dias. Fiquei sem ler os vossos papiros, pois o meu mensageiro núbio Batrákius fez greve, queixando-se dos poucos dracmas que eu esforçadamente lhe pago, e teve a audácia de exigir um aumento!!! Hoje em dia não se pode a gente fiar na criadagem…

Assim, tenho aproveitado o tempo a reler e catalogar a poesia de meu Pai, "Axioco", de 91 anos… e felizmente com mais saúde e menos preguiça do que eu! Ele é versado em muitas Artes, sendo a principal o
Problema de Xadrez, sobre o qual escreveu um Cartapácio.

Também tenho frequentado a Escola de Tagrélia, minha Mestra em Matemática, Filosofia, Política, Culinária, Caligrafia, Contabilidade, Estética, Poesia, Escultura, Pintura, Artes, Canto, Dança, Desporto, Fisioculturismo, Oratória, Declamação e… calculem… Artes Amatórias!!! Uma mulher, hoje em dia, além de já o ser... ainda se vê Grega... com o que tem de saber para enamorar, de corpo e alma, um Cidadão Ateniense!

Mas a Disciplina que agora mais me tem ocupado é a Música… pois a Tagrélia está a ensinar-me a construir uma…
Flauta de Pã!

De modo que em breve vou pôr as vossas missivas e do nosso Mestre Philosophus Murcon, o Sibarita ;))))), em dia. Agora vou é dormir uma sesta debaixo da romãzeira!

Ósculos para todos vós da
Aspásia de Mileto

segunda-feira, 17 de abril de 2006

Poema de meu Pai, Axioco de Mileto


Meu Pai, "Axioco de Mileto"

Como ainda estamos na quadra pascal, aqui deixo um soneto de meu Pai, "Axioco de Mileto" (pai de Aspásia), hoje com 91 anos, e que com ele concorreu - faz hoje 65 anos! - aos Jogos Florais da Primavera realizados em Setúbal, em 18 de Abril de 1941, organizados pela Associação dos Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial “João Vaz”, tendo obtido o 1º Prémio em soneto clássico.
Apesar de ser ateu, ele lá versejou de modo a fazer inveja a muito crente!!! (desculpem a imodéstia da filha babada…).


Redenção

A Treva cai na Terra e vem impôr
pesado luto à turba que emudece.
No Gólgota, escalvado, a Cruz parece
a trágica visão da própria dor.

Crucificado, exangue, o Redentor,
de espinhos coroado, a Vida oferece,
em Santo Sacrifício, que trouxesse
a salvação ao Mundo pecador.

Debalde, ó lei humana, condenaste
Aquele que pregou a Lei dos Céus
e com ferro assassino O trespassaste!

Jesus rasgou da Morte os negros véus
e vencendo a mentira que afirmaste,
deu a Verdade ao Mundo: a Fé em Deus!

R. C. Nascimento, 1941

sábado, 15 de abril de 2006

Estive a arrumar o jardim... para vos poder desejar...

!!!!!!!!!!!!!!!!
...e pedir desculpa pela desarrumação que encontraram os que vieram ao Jardim, nomeadamente o Odisseus! É que estive tão entretida na construção d´ A Flauta de Pã, que deixei cair alguns bocados aqui no quintal! O Péricles já me fez cara feia e já me disse que não me leva a Cartago nas mini-férias... mas já sacrifiquei um ovo de chocolate gigante a Afrodite a ver se ainda o amanso a tempo!!!
Beijinhos amendoados para todos!!!
P.S. - Odisseus, desculpa teres encontrado o Jardim ontem naquele desmazelo; e vou tentar copiar o teu comentário para este novo papiro!...

segunda-feira, 10 de abril de 2006

Poema da Desarrumação

Passo o tempo a fazer "versos"
e quadras de pé-quebrado...
no chão há papéis dispersos,
está tudo desarrumado.

Esta casa é um virote
de papelada e poeira...
mas eu só penso no mote
para nova versalheira.

Amigos, não vos convido
para virem cá a casa...
isto está tudo obstruído,
parece a faixa de Gaza.

No dia em que, finalmente,
me deixar de poesias,
prometo, solenemente,
tornar-me mulher-a-dias!!!
Aspásia 98
Imagem retirada da Net

sábado, 8 de abril de 2006

O Amor e a Amizade


O Amor pergunta à Amizade:
"Mas para que é que tu serves?"
E a Amizade responde:
"Sirvo para limpar as lágrimas que tu deixas cair!"

Bom fim de semana... e aproveitem para gozar bem os vossos amores e amizades! :)

segunda-feira, 3 de abril de 2006

E continua a faltar...

Quando eu nasci, as frases que haviam de salvar a Humanidade já estavam todas escritas. Só faltava uma coisa: salvar a Humanidade.

Almada Negreiros

quinta-feira, 23 de março de 2006

Take this Waltz


Em Viena há dez mulheres belas.
Há um ombro onde a Morte vem chorar.
Há um átrio com novecentas janelas.
Há uma árvore onde morrem as pombas,
quando já não conseguem voar…

Há um pedaço arrancado à manhã
suspenso na Galeria Gelada…
Ay… ay ay ay
Aceita esta valsa, esta valsa, esta valsa,
apesar da boca amordaçada.

Ah, eu quero, quero, quero ver-te
numa cadeira, lendo um jornal sem cor…
Numa gruta na ponta de um lírio,
num atalho onde não foi o amor…

Numa cama onde a Lua suou,
num grito de areia e pegadas…
Ay… ay ay ay
Aceita esta valsa, esta valsa, esta valsa,
cinge-a pela cintura quebrada…

Esta valsa, esta valsa, esta valsa, esta valsa,
com o seu hálito de brandy e Morte,
arrastando a cauda no mar…

Há uma sala de concerto em Viena,
onde a tua boca mil vezes cantou…
Há um bar onde os jovens se calam
porque o blues à Morte os condenou…

Ah, mas quem ousa escalar o teu retrato
com a coroa de lágrimas que acabou de tecer?
Ay… ay ay ay
Aceita esta valsa, esta valsa, esta valsa,
há tantos anos que ela anda a morrer…

Há um sótão onde brincam as crianças,
breve lá nos amaremos, tem de ser…
num sonho emoldurado por lanternas húngaras,
na neblina doce de um entardecer…

E verei que à tua tristeza acorrentaste
o teu rebanho e os teus lírios de neve…
Ay… ay ay ay
Aceita esta valsa, esta valsa, esta valsa,
com um “não te esquecerei, sabes?”, breve.

E dançarei contigo em Viena
e hei-de ir disfarçado de rio,
um jacinto selvagem no ombro,
e minha boca, lenta, bebendo
nas tuas coxas o orvalho frio.

E sepultarei a alma num velho livro
entre o musgo, lembras-te?, e as fotografias…
e à cheia da tua beleza lançarei
o meu violino barato e a cruz
onde me crucifico todos os dias…

E dançando haverás de levar-me
aos lagos que te brotam dos pulsos…
Meu amor, meu amor,
aceita esta valsa, esta valsa, esta valsa…
É tua agora. E é tudo.

[ Tradução livre de "Take this Waltz" de Leonard Cohen ]

L.N.95

quarta-feira, 22 de março de 2006

Enigma da Árvore


Na árvore que, agrilhoada à Terra,
altiva e temerária sonha erguer-se aos Céus,
qual a força, a chama, que afinal se encerra?
Será a Natureza? Será Deus??
L.N. 96

sexta-feira, 10 de março de 2006

É assim que vivem os Homens


É tudo uma questão de cenário
muda-se de cama e muda-se de corpo.
Será que vale a pena pois, afinal,
sou eu sempre que a mim próprio me traio.
Eu, que me arrasto e me disperso,
e a minha sombra que se despe
entre os braços sempre iguais dos homens
onde acreditei encontrar um berço.

Coração ligeiro, coração volúvel, coração pesado,
pois é muito curto o tempo de sonhar.
Que será preciso fazer destes meus dias
Que será preciso fazer das minhas noites…
Eu não tinha amor nem morada,
lugar nenhum onde viver ou morrer,
era eu que passava como um rumor,
e adormecia no ruído da madrugada.

Era um tempo sem qualquer razão,
os mortos estavam sentados à mesa
e fazíamos castelos de areia,
imaginando que os lobos eram cães.
Todos mudavam de ideias e de ombro.
A peça seria estranha ou não,
mas se eu não ia bem no papel,
era por falta de compreensão.

E é assim que vivem os homens
e os seus beijos seguem-nos de longe.

Era no bairro de Hohenzollern
entre o Sarre e a caserna
e como as flores da luzerna,
desabrochavam os seios de Lola.
Ela tinha corpo de andorinha
deitava-se no sofá do bordel
e eu ia deitar-me ao lado dela
ouvindo o soluçar da pianola.

O céu acinzentava-se de nuvens
e passavam bandos de gansos selvagens
anunciando a morte à passagem,
por cima das casas do cais,
de onde eu, pela janela, os via.
E o seu canto triste o meu ser invadia
e julgava eu nele reconhecer
um velho poema de Rainer (*).

E é assim que vivem os homens
e os seus beijos seguem-nos de longe.

Ela era morena e de pele branca,
os seus cabelos caíam sobre a anca,
e quer fosse Domingo ou de semana
a todos ela abria os braços nus.
Ela tinha olhos de faiança
e trabalhava com confiança
para um artilheiro de Maience
que nunca mais regressaria a França.

Havia outros soldados na cidade
e à noite também subiam os civis.
- Retoca o rimmel das pestanas, Lola,
que em breve também irás partir.
Só mais um copo de licor
e foi em Abril, de madrugada,
pelas cinco horas, que em teu peito
um dragão enterrou a sua espada.

E é assim que vivem os homens
e os seus beijos seguem-nos de longe.

* * *

(*) Rainer Maria Rilke

Tradução livre da adaptação de Léo Ferré do poema de Louis Aragon “C´est ainsi que les hommes vivent”.