terça-feira, 30 de dezembro de 2008

2009 SEM FOME?

JÁ PENSASTE NOS TEUS DESEJOS PARA O NOVO ANO?

ELES TAMBÉM!!!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Um Feliz 2009 !




Receita de Ano Novo


Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

NATAL
Na Tal Luz


Esse Natal de há dois mil anos etc. e tal,
só esse afinal foi o verdadeiro.
Não tanto talvez por ter sido o primeiro,
mas porque nessa noite é que num vulgar palheiro,
nascia um menino muito especial.

Só nesse Natal a noite foi tão fria.
Só nesse caía, densa, tanta neve.
Só nesse se ouvia um choro, ao de leve,
do menino com frio, num vagido breve,
enquanto sua jovem mãe em faixas o envolvia.

Só nesse Natal brilhou a grande estrela.
Quase se diria que era claro dia.
No Céu, brilhante, o astro que fulgia.
Na Terra, o branco manto que, suave, o reflectia.
Só nesse Natal a noite foi tão bela.

Só esse Natal foi mesmo de Jesus.
Depois, inventaram-se umas complicações,
muitas fitas, luzes, pinheiros e faisões,
enquanto mais meninos pobres nascem e, aos baldões,
todos os dias carregam uma cruz.

Afinal,
só acredito nesse Natal
de há dois mil anos etc. e tal.
Nestes "Natais" de agora, vendidos por catálogo,
e a pagar em suaves prestações,
nestes "Natais" de agora, não brancos, mas vermelhos
do sangue no asfalto aos borbotões...
Como é que pode estar Jesus nos corações?
Como é que pode ficar mais leve a nossa cruz?

Será que ainda voltará a haver Natais como aquele primeiro
Natal, sentido, vivido, brilhando Na Tal Luz?

Aspásia 04


domingo, 14 de dezembro de 2008

Margarida, minha Irmã
(Republicação)



Maria Margarida Fernandes de Carvalho Nascimento

(7 de Fevereiro 1947 - 14 de Dezembro 1972)

- Retrato a Óleo (póstumo)




Jogando à bola com o Pai - 1956


Irmã,faz hoje 36 anos que partiste.

Infelizmente partiste muito cedo, tão cedo que ainda quase não nos conhecíamos… eu entrava em pleno na adolescência e tu eras 10 anos mais velha, e embora vivesses aqui no prédio com a tua Avó, pouco convivíamos a não ser ao fim de semana ao almoço, ou quando eu passava lá por baixo pelo quarto independente da D.ª Emília, mas poucas vezes estavas. A Faculdade de Direito tomava-te quase todo o tempo e a nossa diferença de idades era bastante significativa no nosso escalão etário.

Além disso, tinhas as tuas amigas, a Juss, já desde o Liceu, a cuja quinta ias andar a cavalo e que se formou em Direito no mesmo ano que tu – 1969 - e a brasileira Lúcia, que tinha vindo para Portugal e tinha dois anos menos que tu, conheceram-se no voleibol… a Lúcia, tão acarinhada por ti e pela Avó Maria, quando veio estudar Medicina para Portugal. A Lúcia, que nem sempre tinha muito dinheiro e almoçava muitas vezes contigo e a Avó. A Lúcia, que te convidou para ires ao Brasil, à casa dela no Rio Grande do Sul, no Natal de 1972. A Lúcia… que colocou o que restou de ti depois do acidente no jazigo da família dela, na cidade de Bento Gonçalves. A Lúcia… seria preferível não teres conhecido a Lúcia de Souza???

Foi longa aquela noite de 14 de Dezembro de 1972.

O telefone tocou pelas 10 da noite. Tu tinhas partido com a Jusse e a Lúcia para o Brasil no dia 7 ou 8… já tínhamos recebido dois ou três postais teus… e depois dessa noite ainda recebemos mais um ou dois… o Correio era lento do Brasil para cá… nunca aqui em casa se tinham recebido postais de uma morta, até então. Claro que os tenho todos guardados, e recentemente encontrei outros mais.
O nosso Pai atendeu. Pela cara e de onde vinha o telefonema… eu percebi logo que algo grave, muito grave se tinha passado.
“Um acidente. Um camião em sentido contrário... A sua filha ia a conduzir. Com as amigas Jusse e Lúcia e o pai iam todos no carro deste último… O camião perdeu a mão, ou pareceu vir contra o carro… A sua filha tentou desviar-se. O carro despistou-se: A sua filha foi projectada pelo vidro da frente. Foram todos levados ao hospital. A sua filha faleceu. As amigas e o pai da Lúcia, feridos, mas vivos… Quer trasladar a sua filha para Portugal?”
Eu e a minha Mãe estávamos já em prantos. O nosso Pai, lívido, mas nem uma lágrima. “Para que quero eu aqui uma filha morta? Fica aí convosco que fica bem… Antes quero dar esses 400 contos à minha filha viva – eu – do que a uma filha morta que já de mais nada precisa.”

Desligou o telefone. Eu estava num choro que só dois dias depois é que foi passando.



Maria dos Santos, a Avó Maria, perdeu o marido, a filha mais velha Felismina de 20 anos, a filha Albertina de 25 e o filho Jaime (pai de Jaime Fernandes, locutor de rádio), todos levados pela tuberculose. E finalmente sua neta Margarida de 25 anos, minha meia-irmã, num acidente de viação no Brasil.



E agora? Como dizer a uma Avó-Mãe, que já perdera o marido, o filho e as duas filhas, todos levados pela tuberculose… e que só via a neta desde que ficou órfã com um ano de idade… que a neta de 25 anos acaba de morrer no Brasil?



No Casamento dos meus Pais (de laçarote) - Agosto 1956



Lá fomos em féretro a casa da Dona Emília. Os rapazes estavam também, o Adrião, o e o Paulo. (Ah, a propósito, irmã. O Zé já se foi, fez um ano em Dezembro, com 50 anos… Foram muitos anos de droga… o irmão dele, o Adrião, andou ali a tirar os velhos móveis e candeeiros do 1º andar. Eu e o Pai vínhamos a entrar e lá lhe demos os sentimentos. O Adrião, mais novo que tu uns 6 anos, tem quatro filhos e já é avô, calcula… O Paulo teve uma doença grave, mas está controlado. A minha Mãe também já se foi em Abril de 2002. A Mãe deles, D.ª Emília, que também foi tua segunda mãe, foi logo a seguir, em Maio desse ano. Felizmente não viveu para assistir à morte do filho Zé.)

Nem me lembro já com que palavras, o meu Pai lá contou à tua Avó o sucedido. Pois ficou como calculas… ou viste daí… Uma vida inteira a criar-te. Era tua Mãe, além de Avó. Maria dos Santos, viúva do marido, “órfã” de 3 filhos, entre os quais a tua Mãe, Albertina, 1ª mulher do nosso Pai. Maria dos Santos, de Vila Nova do Ceira, Monteira, Góis. Maria dos Santos, analfabeta, ex-empregada no Instituto Pasteur, onde lavava frascos de vidro e onde foste criada dentro dos grandes caixotes de cartão que te serviam de parque, irmã. Maria dos Santos, a tua Avó, perdeu por fim a única neta nesse Natal de 1972. Ainda te sobreviveu seis anos e faleceu em 1978. Uma Avó Coragem… eu ia ali muito à casa da frente para onde vocês tinham mudado poucos meses antes de tu faleceres, tratar dos canários e fazer alguma companhia, claro. Fui a neta adoptiva, a única que restou.

Olha… ainda acabei o barco em miniatura que tu deixaste incompleto. Acho que era o “H.M.S. Beagle”, onde Darwin foi na expedição às Galápagos. Os teus livros de Russo agarrei neles e também estudei um bocado. Pelo menos sei o alfabeto e sei ler mas hoje em dia só me lembro aí de umas 20 palavras… nesse tempo sabia muitas mais. A ti é que o Russo te ia fazer falta para quando entrasses no Gabinete da Área de Sines… para mim o Russo foi apenas um desafio e o gosto pelas línguas. Mais um hobby nas férias passadas no Alentejo…

Também tenho comigo muitos versos e desenhos teus, já tinha alguns, mas, finalmente com a entrega do teu pequeno apartamento que se fará ainda este mês, encontrei todos os teus papéis que ali ficaram durante 36 anos, em que a pequena casa foi servindo de biblioteca e armazém, depois do falecimento da Avó.

Dos montes dos teus livros, li os do “Santo” e os do Zane Grey todos. Claro que os da tua infância, os Cinco, a Semana de Aventuras, a Condessa de Ségur e o Emílio, esses já os tinha lido todos, ainda eles estavam na gaveta de baixo da cómoda, no quarto independente, onde eu regularmente me ia abastecer.
De coisas mais antigas que o Pai vai contando às vezes, lá sei que, logo depois de a tua Mãe Albertina ter falecido de tuberculose com cerca de 25 anos, o Pai e a Avó contigo ao colo vinham todos os dias de Mem Martins para Lisboa no combóio de Sintra. Depois, no eléctrico, mesmo depois de fazeres 6 anos continuaste a não pagar bilhete durante mais uns anos, pois todos os revisores conheciam a pequenita Calila, órfã de Mãe, que vinha sempre ao colo da Avó há tantos anos no mesmo eléctrico.


Também encontrei versos de tua Mãe Albertina e tua Tia Felismina, que amorosamente guardavas sem ter conhecido nem uma nem outra. Ambas com grande veia poética, tua Mãe e Tia foram colaboradoras na "Revista Trastagana" de Évora, até falecerem. Eu só soube disso agora que encontrei meia-dúzia dessas revistas, de 1936. A veia poética passou para ti, de tua Mãe e de nosso Pai. Agora, apesar de tão idoso, recuperou a saúde que parecia estar a abandoná-lo o ano passado, felizmente.
Um destes dias começarei a publicar algumas obras tuas, entre desenhos, poemas, prosas por aqui. Não se sonhava, no ano em que faleceste, que a Tecnologia de hoje em dia permitisse uma coisa dessas.

Irmã, terei de escrever mais sobre ti, para que alguns Amigos meus fiquem a conhecer algo da pessoa que já eras e cuja vida e talento, cortados cerce na nefasta senda de tua Mãe e Tios, ainda tanto tinham para dar.

Recebe um beijo de nosso Pai e desta tua irmã

Leonor




Minha Mãe, minha Irmã e eu - 1958


UM SONETO DE MARGARIDA (dedicado a seus padrinhos)

Para a Madrinha e o Padrinho, o Fernando Manuel, a Dadi, o “tio” Hermínio.


Se sinto tanto afecto, só de olhá-los,
É pena desigual deixar de vê-los;
Se presumo, com obras, merecê-los,
Má paga deste engano é chateá-los.

Se me vêm saudades, ao lembrá-los,
É por ter aprendido a conhecê-los;
Se mais me quero a mim, por bem querê-los,
Mais me aflige a ideia de deixá-los.

Expressões menores são, que o pensamento,
Estas tão pobres rimas, com que tento
Com fraco engenho, dizer forte sentir.

Ainda os não deixei, e, que ironia!
Falta-me já a vossa companhia;
Sobeja-me a tristeza de partir.


Margarida
7/10/71

(Infelizmente, este Soneto de minha Irmã, aos 24 anos, veio a revelar-se premonitório.)


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Agradeço-te muito, querida Gasolina!

A GASOLINA, DA ÁRVORE DAS PALAVRAS, ACHOU POR BEM, ATRIBUIR-ME ESTA DISTINÇÃO. E EU ACHO POR BEM REPRODUZIR AQUI AS PALAVRAS DELA AO OFERECER-MA, POIS MUITO SIGNIFICARAM PARA MIM. MUITO OBRIGADA, AMIGA !



[Palavras da Gasolina]

A uma Jardineira ímpar: ASPÁSIA

No JARDIM de ASPÁSIA podem colher-se flores e pisar-se os canteiros.

Podemos encantar-nos com poesia. Com ciência. Com velhas coisas que se tornam novas à luz do dia. Com viagens por vários Países. Com humor e boa disposição e muito principalmente com o factor surpresa.

Em Dezembro o Jardim de Aspásia. Primavera garantida.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Come Fa Freddo Stanotte
(Como Faz Frio Esta Noite)

Parece que aí há uns tempos andei a prometer uns poemas meus noutras línguas... bem, fui às arcas e encontrei este, já antigo, mas que levou agora ums "puxadelas de brilho"... quem saiba para aí mais ou menos italiano, ou até nenhum, pode opinar! Arrivederci !



Come fa freddo stanotte
Come sento che non stai
Amore son´ cosi sola
Ma spero che arriverai

La raggione se ne va
Lontano in questo sogno
Sei tu o anima cara
Tutto quello ho bisogno.

Già la mia testa ferve
Di tanto pensare a te
Ma nel tuo sogno breve
Magari tu pensi a me…

Come fa freddo stanotte
Freddo anche nel mio cuor´.
E queste parole vuote
parlano piene d´amor´.

Aspásia 2006, alterado 2008

TRADUÇÃO


Como faz frio esta noite
Como sinto que não estás
Amor estou tão sozinha
Mas espero que chegarás.

A razão vai para longe,
Deste sonho ela se afasta.
Tu és ó alma querida
Tudo quanto a mim me basta.

A minha cabeça ferve
de tanto pensar em ti.
Mas nesse teu sonho breve
talvez tu penses em mim.

Como esta noite está fria
e frio no meu coração
e estas palavras vazias
falam cheias de paixão.