quarta-feira, 3 de maio de 2006

Carta ao Amigo



Olá, Amigo, resolvi escrever-te
só para dizer que não há nada de novo.

Olha, saí, meti-me no carro
e chegando ao semáforo seguinte
vi o mesmo pedinte
com que há anos deparo.
Dei-lhe uma moeda de vinte.

Na fila de trânsito,
vi as mesmas caras agressivas
por dentro dos vidros embaciados.
Sorrisos não vi, nem expressões vivas:
só olhares cansados.

Também quis entrar no café,
mas era tal a fumaça lá dentro
que achei melhor adiar o momento
e fugi dali a sete pés.

Deu-me para comprar o jornal,
mas também não sei para quê:
já ontem, na TV, disseram tudo igual.

Parece que o principal
é que caiu um avião no Mar do Norte.
Mas olha, tiveram sorte:
dos noventa só morreram vinte e tal,
incluindo um doente de Sida, por sinal,
a quem já tinham lido a sentença de morte.

Os pais do rapaz até deram graças
por ele ir de repente
e não o verem mais pela casa
a morrer lentamente.
Das famílias dos outros vinte e tal
é que não sei o que disseram,
não vinha no jornal,
talvez não tenha sido tão sensacional.

Como vês, vai tudo normal.

Passei ali pelos arredores
e lá estavam os arrumadores
à porta do Centro Comercial
a arrumarem os senhores doutores.
Também estavam uns ciganos vendedores
discutindo com eles um espaço vital
para estenderem no chão uns cobertores
onde exporem o material.
Mas apareceu um carro da polícia
e debandaram todos por igual.

Enfim, virão tempos melhores.

De saúde, olha, vou assim-assim,
uns dias pior, outros menos mal.
Que se há-de fazer? É fatal.

E assim cheguei ao fim.
Como vês, não há nada de especial.
Fica bem, ou, pelo menos, tu também, menos mal.

Tua,
L.

Aspásia 99

10 comentários:

Amigo disse...

Ola amiga! Na realidade o quotidiano às vezes é farto de inclemências, talvez mesmo de chamamentos.Quem os ouve?!Será que nós nos ouvimos? Não há nada de novo? Quiçá houve esse teu desabafo, e talvez tua nova música. Coteja o resto dessa catogoria existencial e serve-te, e a nós, do que é necessário fazer...Beijos

mtc disse...

Olá Aspásia

Pedintes, olhares cansados, fumo de cigarros, notícias só sobre tragédias, arrumadores...anda muito triste o nosso país :(

Fez-me lembrar aquela letra da canção "Meu caro amigo" do Chico Buarque:

...Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa...


Lembras-te?
Um beijinho e um bom começo de semana...

Aspásia disse...

Yassou, Kalispera MT!

Fico contente de saber que gostaste. Fi-lo há uma meia dúzia de anos, mas parece que nada mudou... E fazes bem em lembrar o Chico, há tempos que não o ouço...

Filis! E bom início de semana também para ti.

Pamina disse...

Olá Aspasia,

Vim ver a tua outra casa:). Gostei muito do poema. Concordo com a Teresa: faz lembrar essa canção do Chico. Mas também me fez lembrar o Alexandre O'Neill.
Bom início de semana e um beijinho.

Aspásia disse...

Olá Pamina

Sê bem aparecida aqui no jardim. O poema é já uma "velharia" como a maioria dos de minha autoria que tenho publicado por aqui, no entanto podia ter sido escrito hoje. Ainda não se resolveu nenhum destes problemas...

Espero tenhas tido um bom Dia da Mãe... com um "pequerrucho" desses decerto que foi...

Beijinhos para os dois.

Ni disse...

O teu poema também me lembrou o Xico...a coisa tá mesmo preta!!!
Mas,bora lá abrir um sorriso porque não se resolve nada de cara fechada.
Um beijinho.

Aspásia disse...

Olá Ni

Um sorriso pode abrir muitos caminhos. Aqui fica o meu para ti!

Beijinhos

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