segunda-feira, 10 de novembro de 2008

"Foi assim que ela aprendeu..."
(um texto de minha Mãe)

No pátio do Valsassina, com uma das suas inúmeras "ninhadas",
que pelas suas aulas passaram ao longo de quase 50 anos...
Amigas/os

Passa hoje mais um aniversário natalício de minha Mãe Carlota, que, se ainda estivesse entre nós, faria 88 anos de idade.
Tendo já, neste dia em 2006, dado algo a conhecer da sua vida e morte e publicado um poema seu – infelizmente ela destruiu a maioria deles – gostaria hoje de convosco partilhar uma pequena história verdadeira, por ela escrita quando ainda leccionava no Colégio Valsassina, pelos anos 70 ou 80 do século passado.
Minha Mãe leccionou nesse mesmo Colégio como professora efectiva da então “4ª classe”, desde 1952 a 1987, com um intervalo de 3 anos devido ao meu nascimento, em 1957. Mas já desde 1940 percorrera várias escolas, ensinando em pequenas aldeias alentejanas.
O pequeno relato refere-se às suas primeiras “lições” dadas, ainda com 14 anos - pois só completaria 15 em Novembro - a uma pequenita de Estremoz, terra de onde ambas eram naturais.




FOI ASSIM QUE ELA APRENDEU...

Era uma criança pequenina para os seus seis anos, ainda incompletos.
Olhos pretos, muito vivos, faces sempre rosadas, aventalinho de chita rematando com lacinhos nos ombros eram as notas mais flagrantes para quem a observasse.
Ela estava ali todas as manhãs daquele mês de Setembro, manhãs quase sempre frias e enevoadas, a prometerem um Outono pouco ameno.
Trazia a saquinha de linhagem grosseira, sarapintada de cores garridas. Dentro dela vinha a “Cartilha Maternal” e uma pequena ardósia com lápis do mesmo, pendurado por um fio preso à moldura de madeira que a enquadrava - para não se perder...
Quando chegava sentava-se na sua cadeirinha que arrumava com grande cuidado antes de ir para casa.
Depois ficava a esperar, ansiosa, que eu lhe desse lição e “passasse a escrita” como ela lhe chamava.
Vinha ali para aprender as “primeiras letras” conforme o pai me pedira, “pagando o que fosse preciso” - insistia ele -, porque o seu maior desejo era que a filha, quando entrasse para a Escola, “não fosse sem saber nada...”
Apesar dos meus catorze anos e de não me sentir ainda à altura de tão importante tarefa, acabei por aceder ao pedido daquele pai tão preocupado e foi assim que tive a minha primeira aluna...
Lá por meados de Outubro, quando ela foi para a Escola, já quase sabia ler e, com grande presunção, escrevia na sua pequena ardósia as tais “primeiras letras”, como seu pai tanto desejava.

... Era assim, naquele tempo...

... Setembro de 1935...



Carlota/

(escrito nos anos 80)

4 comentários:

Victor disse...

Querida Aspásia

Acabou de receber o prémio Dardos.

Agora é só cumprir as regras. Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve:

1. - Exibir a distinta imagem;

2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;

3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.

Beijinho.

Sophiamar disse...

Querida Amiga Nô

Gostei muito deste post. Relembrar a mãe, a nossa melhor amiga, é sempre com muito gosto que o fazemos. É inesquecível!Um texto muito bem escrito para quem tinha quinze anos. Sabes que a minha mãe também preparou muitos meninos para o exame da 4ªclasse? Em casa! O Valsassina sempre foi um colégio muito bom .
Amanhã escrevo-te email. À noitinha!
Estou contigo. Sempre! Força, amiga!

Beijinhos

mariam disse...

ASPÁSIA,
BELÍSSIMA HOMENAGEM A SUA MÃE.

DOU-LHE UM BEIJINHO
E UMA FRASE DE «F.PESSOA», QUE POR COINCIDÊNCIA, JÁ É A SEGUNDA VEZ HOJE QUE A ESCREVO,
"A MORTE É A CURVA DA ESTRADA, MORRER É SÓ NÃO SER VISTO (...)"

BOM DOMINGO E MELHOR SEMANA
UM SORRISO :)
MARIAM

vero disse...

Olá minha amiga :)

Gostei muito deste post,
uma bonita homenagem...

Beijinhos