quarta-feira, 14 de junho de 2006

Parabéns, Pai!

A meu Pai, que hoje completa 92 belos anos, dedico estas "rimas". Perdoem o orgulho da filha babada...



Neste dia memorável,
perante nobre assembleia,
ocorreu à filha a ideia
de rimar ao pai amável,



que ao Xadrez tem dedicado,
principalmente, a existência;
mas também, com excelência,
noutras Artes é versado.



O Problema de Xadrez,
p´ra ele não tem segredo.
Compõe, sem dúvida ou medo,
mates em dois e em três.


Problemas figurativos,
tecendo belas imagens,
dedicou a personagens
ilustres, mortos ou vivos.



A concursos variados
apresenta seu trabalho
e, sempre sem enxovalho,
fica bem classificado.

Mas se a Musa do Xadrez
foi a que mais o inspirou,
as outras, que cultivou,
não deixou em pequenez.

De Erato, melodiosa,
aprendeu, sem desatino,
a arrancar do violino,
tango ou valsa primorosa...


A mesma Musa formosa,
o inspirou na Poesia:
num repente e com mestria,
verseja com mote e glosa.


Dos livros é grande amigo,
quer versem Arte ou Ciência,
e na arte da eloquência
não passa despercebido.


Grande leitor de jornais,
das Letras grande amador,
chegou a dizer, de cór,
“A Ceia dos Cardeais”!...


Às mais exactas Ciências,
com afinco se aplicou,
e também não desprezou,
dos astros, as refulgências!


De Arquimedes às Ideias,
ou de Einstein às Teorias,
dedicou noites e dias,
desenredando essas teias...



Do Tempo leva vitória,
os cometas observou...
E, de Vénus, contemplou
a apolínea trajectória! (*)



Os amigos dedicados
nunca da memória tira...
por Damião de Odemira,(**)
os traz, sempre, convocados!



Já longo é o seu trajecto,
mas não se dá por vencido...
amanhã, ao sol nascido,
já ensaia outro projecto!


Da Razão, Justiça e Bem
Paladino se tornou,
Esposo amável se mostrou,
Pai muito amigo também;
histórias conta mil e cem
que a todo o que escuta encantam...
Noventa e dois “já cá cantam”...
Cá estaremos para os Cem!!! (***)

X C I I em M M V I

* * *

(*) - O trânsito de Vénus.
(**) - A Tertúlia "Damião de Odemira", de que foi fundador.
(***) - Pelo menos!




Ao Violino, seu 2º Hobby
- Señor Comisario (tango)
- Samaritana (fado) - Adiós, Pampa Mía (tango)

14 comentários:

Anónimo disse...

Muitos Parabéns .

"Todas as idades dão os seus frutos ;é preciso saber colhê-los "
Raymond Radiguet"


Carlota joaquina

Anónimo disse...

Parabens. É um exemplo a seguir por essa estrada fora, que chama vida

jorgesteves disse...

Foi a dedilha do Acaso que me trouxe; associado aos 'parabéns' que a beleza da idade obriga, fica a outra beleza da homenagem lida...

jorgesteves

mtc disse...

Olá Aspásia :)

Em primeiro lugar Muitos Parabéns ao teu Pai. Que bonita homenagem e que bonitos versos em que expressas de forma tão querida o teu amor e dedicação. O maravilhoso da poesia é mesmo isso. A possibilidade inesgotável que existe nela, a forma de entrar nesse mundo ilimitado de palavras e emoções...
Que o teu Pai continue a ter muita saúde...
Parabéns aos dois porque quer o teu Pai quer tu são especialmente brilhantes :)
Beijinhos e abraços por este dia tão especial

PS: Adiós...Pampa mía...
Me voy camino de la esperanza.


Hoy y siempre, amiga :)

Aspásia disse...

Olá Teresita!

Já estava para te enviar um mail, pois com todas estas tarefas para o pai, incluindo a biografia, andei numa fona, mas valeu a pena, ele ficou muito contente. De facto poucas pessoas com esta idade se podem gabar de uma cabeça e uma saúde como a dele... esperemos chegar lá também...

Grandes besitos amiga, siempre nos encontramos en la Pampa Nuestra de la Amistad!:))

Aspásia disse...

Teresita 2

Belas lembranças no teu "Memória", do Eugénio e do Jaime Cortesão. Gostei muito

Otro Besito

Poesia Portuguesa disse...

Apesar de atrasada, não quero deixar de dar os parabéns. Prenda não trago, mas os meus respeitos e a minha admiração por esta maravilhosa homenagem.
E, este Poema...


"No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

(Álvaro de Campos)


Um Abraço a ambos... ;)

Ni disse...

Um beijo ternurento de Parabéns ao teu pai e já agora Parabéns também pela filha que tem.
Beijinhos para ti também Aspásia.

Aspásia disse...

Poesia Portuguesa e NI

Muito grata pelos simpatiquíssimos parabéns que transmiti a meu Pai. Ele ficou contente por saber que já é célebre entre os meus amigos bloguistas...

Grandes beijinhos nossos para todos vós.

APC disse...

"Se a juventude soubesse, se a velhice pudesse" - Henri Estienne, Les Prémices.

E, pelos vistos, esse magnífico aniversariante sabe e pode!

Lindo, lindo, lindo!

Linda a idade do papá, linda a ideia da filha, lindo se o imaginarmos a fruir, alegremente, de tão querida surpresa.
E como versejadora estiveste brilhante, que quadras com esse estilo já não lia há muito!

Lembrei-me, não sei porquê, que há tempos me chegaram às mãos uns caderninhos onde a minha bizavó escrevia - deliciosamente - poesia e pensamentos diversos. E que eu me achava completamente desencaixada da totalidade da minha família, até descobrir assim que, afinal, alguém havia existido a sentir as coisas como hoje as sinto. Pois... É como te digo... Não sei porque me fizeste lembrar disto! :-)

Os meus parabéns, com ou sem atraso, continuação de uma vida cheia para o teu pai e de melhoras da tua vista para ti; porque há que ver... Há que ver...!

:-)

Pamina disse...

Olá Aspásia,

Só vi o post hoje, mas embora atrasados quero também desejar os parabéns ao teu pai (a minha mãe tem 94). Por favor, transmite-lhos, com desculpas da retardatária:).
Foi uma bonita homenagem que lhe fizeste e que ele certamente apreciou. Desejo muitos problemas de xadrez ainda a inventar.
Beijinhos para vocês e um bom fim-de-semana.

APC disse...

E, acredites ou não, acabei esta a noite a reler, com a minha prima direita, os poemas e pensamentos da nossa Bis, alguns dos quais, aliás, conto incluir no meu blog, a seu tempo. Quando os lá vires, saberás quem acabou a contribuir para isso, sem nem fazer ideia ;-)
Antecipadamente, porém (e por isso), é com gosto que te deixo este pequenino exemplar, em primeiríssima mão:

Sinto ao beijar-te, que louca!
Nos beijos que te vou dando
Pedaços d'alma passando
Da minha para a tua boca

Como a andorinha ligeira
Leva no bico uma flor
Levaste-me a vida inteira
Nas azas do teu amor!

(Olímpia Laires, 1924)

Aspásia disse...

APC

É bom e belo honrarmos e lembrarmos os nossos maiores, que também foram jovens como nós! Meu pai tem também resmas de poemas e 2 peças de teatro. Foi um rapaz que copiava alguns livros dos colegas do liceu, à luz do petrõleo por não ter dinheiro para os comprar todos! Fez apenas o 5º ano Liceal e depois estudou Física, Matemática, Música e Xadrez como autodidacta. Escreveu 2 revistas e canções com letra e música. Conhece muita Literatura portuguesa e estrangeira. Uma cabeça com há poucas... e que nunca teve uma dor da mesma!!!
Parabéns pelos versos da bisavó. Estou vendo que há que iniciar um Blog só para poesia dos nossos pais, avós e bisavós e até amigos destes...

Um grande Beijo e bom fim de senmana:))

Aspásia disse...

Ressalvo:petróleo, semana.

Querida Paminushka

Tu nunca vens atrasada. Vens quando puderes e é sempre a tempo giusto...

Parabéns por essa Mãezinha que felizmente ainda vos acompanha! Infelizmente a doença já me levou a minha, ainda não muito idosa e nem parecendo a idade que tinha (81)... temos de nos conformar...

Um bom fim de semana e beijinhos para todos vós :)))